As calçadas, meu senhor, as calçadas, as lisboetas, já não são o que eram. Suspiram para serem encostadas umas às outras pelo peso do seus massagistas, alheios ao prazer e à dor do seu temporário sustento, essas pedras pobres em leveza e ricas em luz. Não há tempo, meu caro, há muito tempo, imagina os dias previsíveis?, as pessoas são inconstantes, ora se são, por vezes passam depressa, muito depressa, outras vezes param, os mais ousados, os espertalhões, encostam-se, à espera de um sinal urbano de cor negra e de fundo colorido, sem pingo de criatividade. E qual é o melhor caminho calceteiro, oh, meu caro sneho, pergunta divina e diabólica, pergunta o caminho a um português, aqui ninguém conhece a cidade, homem de deus, trabalhará o meu camarada no futebol ou na justiça e saberia-lo com certeza, agora nesta hora do Senhor e neste canto de jangada perdido, meu senhor, como quer que lhe responda, quer de dia ou de noite, mas que raio, faz alguma diferença, toda, pois claro, não havia de fazer nesta cidade morta e cinzenta, com tão pouca vida interessante e cedida ao trespasse. Não lhe pergunto mais, peço desculpa, na verdade até parece que pela Internet darei com o caminho, pois, bem me queria parecer, já nada se faz com o corpo e a alma, tudo agora é com a ponta dos dedos, adeus mundo a nossos pés, como outrora, belos tempos não caro descendente dos grandes descobrimentos, não, homem dos negócios estrangeiros, eu mal dou com o caminho, embora nesta cidade, de tudo se descobre, sobretudo enrolado em tapumes e poeiras, siga o caminho, então, que lhe aprovuver, é isso pois que tentarei, penso que até sei lá chegar, ah!, pergunta por perguntar, está a ficar português, caro negociante estrangeiro, pergunta para confirmar, sinal dos tempos desta era das TIC que no meu tempo eram transportes, pois claro, tudo é acessível por todos e paradoxalmente a insegurança brada os caminhos dessas redes sem fim e sem fios - que saudades da minha velhinha antena - na verdade... oh meu caro bife, desculpe a franqueza, não me venha com pantominices, todos perguntam para confirmar, a confirmação procura-se em todos os lados, nos quiosques, nos amigos, nos médicos, nos advogados, até na televisão, com um telefonema para o consultório, outro para a opinião pública, e tudo se confirma. Bom, tudo não é bem assim, quase tudo, desculpe-me meu caro esta tendência do meu povo, sempre fomos adeptos do absolutismo, portanto, digo quase tudo porque o resto é para se perguntar porque não fez melhor, isto é, para se criticar, de preferência de forma calceteira, pois claro, quem não gosta, ah, ah... Portugal é uma nação antiga, ei, ei, calma!, antiga sim, mas nação?, nação é Lisboa, aqui não há ponta... com calceteiros e aspirantes, e quem não embarca, leva com a calçada em cima, dos pés, porque o povo português, embora não pareça, parece andar com os pés enterrados quando caminha. Nunca se apercebeu? Eu percebo, tem que viver mais por cá e ver mais televisão portuguesa. Aqui fala-se mais com os pés do que com a boca, talvez seja o peso Hstória, ou do orgulho, mas para mim são plumas, meu senhor estrangeiro, como este povo amante da superficialidade, somos plumas da História, meu caro... Tenho que ir andando, peço-lhe desculpa, queria ver a calçada ainda hoje, senhor, senhor lisboeta? Desculpe! Primeiro sou português, depois vem esta terra que piso! Vá lá, encontre o seu caminho, que Santiago não se encontra nas esquinas lisboetas...talvez um Lizarran.
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domingo, 9 de setembro de 2007
ESPUMAS XXXIX
As calçadas, meu senhor, as calçadas, as lisboetas, já não são o que eram. Suspiram para serem encostadas umas às outras pelo peso do seus massagistas, alheios ao prazer e à dor do seu temporário sustento, essas pedras pobres em leveza e ricas em luz. Não há tempo, meu caro, há muito tempo, imagina os dias previsíveis?, as pessoas são inconstantes, ora se são, por vezes passam depressa, muito depressa, outras vezes param, os mais ousados, os espertalhões, encostam-se, à espera de um sinal urbano de cor negra e de fundo colorido, sem pingo de criatividade. E qual é o melhor caminho calceteiro, oh, meu caro sneho, pergunta divina e diabólica, pergunta o caminho a um português, aqui ninguém conhece a cidade, homem de deus, trabalhará o meu camarada no futebol ou na justiça e saberia-lo com certeza, agora nesta hora do Senhor e neste canto de jangada perdido, meu senhor, como quer que lhe responda, quer de dia ou de noite, mas que raio, faz alguma diferença, toda, pois claro, não havia de fazer nesta cidade morta e cinzenta, com tão pouca vida interessante e cedida ao trespasse. Não lhe pergunto mais, peço desculpa, na verdade até parece que pela Internet darei com o caminho, pois, bem me queria parecer, já nada se faz com o corpo e a alma, tudo agora é com a ponta dos dedos, adeus mundo a nossos pés, como outrora, belos tempos não caro descendente dos grandes descobrimentos, não, homem dos negócios estrangeiros, eu mal dou com o caminho, embora nesta cidade, de tudo se descobre, sobretudo enrolado em tapumes e poeiras, siga o caminho, então, que lhe aprovuver, é isso pois que tentarei, penso que até sei lá chegar, ah!, pergunta por perguntar, está a ficar português, caro negociante estrangeiro, pergunta para confirmar, sinal dos tempos desta era das TIC que no meu tempo eram transportes, pois claro, tudo é acessível por todos e paradoxalmente a insegurança brada os caminhos dessas redes sem fim e sem fios - que saudades da minha velhinha antena - na verdade... oh meu caro bife, desculpe a franqueza, não me venha com pantominices, todos perguntam para confirmar, a confirmação procura-se em todos os lados, nos quiosques, nos amigos, nos médicos, nos advogados, até na televisão, com um telefonema para o consultório, outro para a opinião pública, e tudo se confirma. Bom, tudo não é bem assim, quase tudo, desculpe-me meu caro esta tendência do meu povo, sempre fomos adeptos do absolutismo, portanto, digo quase tudo porque o resto é para se perguntar porque não fez melhor, isto é, para se criticar, de preferência de forma calceteira, pois claro, quem não gosta, ah, ah... Portugal é uma nação antiga, ei, ei, calma!, antiga sim, mas nação?, nação é Lisboa, aqui não há ponta... com calceteiros e aspirantes, e quem não embarca, leva com a calçada em cima, dos pés, porque o povo português, embora não pareça, parece andar com os pés enterrados quando caminha. Nunca se apercebeu? Eu percebo, tem que viver mais por cá e ver mais televisão portuguesa. Aqui fala-se mais com os pés do que com a boca, talvez seja o peso Hstória, ou do orgulho, mas para mim são plumas, meu senhor estrangeiro, como este povo amante da superficialidade, somos plumas da História, meu caro... Tenho que ir andando, peço-lhe desculpa, queria ver a calçada ainda hoje, senhor, senhor lisboeta? Desculpe! Primeiro sou português, depois vem esta terra que piso! Vá lá, encontre o seu caminho, que Santiago não se encontra nas esquinas lisboetas...talvez um Lizarran.
sexta-feira, 1 de junho de 2007
ESPUMAS XXXVIII
A espuma verborreica sobre os casos Maddie, Charrua, da greve geral e o da OTA vislumbra-se por qualquer lado do olhar. Não há meia volta contornável, nem via escapatória, mesmo para os mais especializados na arte da fuga. São notícias importantes, algumas, como a OTA, determinantes para o futuro do País, mas confesso que estou farto deste tipo de notícias, mesmo que fundamentais para o país. Eu seguia-as, até há pouco tempo, com interesse e importância, agora oiço-as e leio-as, porque sim, pela esperança de ver algo de novo, de aprender um novo olhar sobre o tema, uma novidade substantiva para a boa e livre e profunda discussão do caso, da matéria que lhe subjaz. E nada, nada se transforma neste mundo e tudo se perde. Mas está impossível de se conversar com alguém, um colega, um aluno, até um amigo, nas mais diversas esquinas do diálogo.
Há quem morra, antes de abrir a boca e há quem basta accionar a glote. Ademais, têm que ter um perfil retórico e uma habilitação condizente, caso contrário, é desligado por outro canal ou outra estação ou outra personalidade. Não admira que os programas com debate mais profundo tenham menor audiência do que outros debates mais populachos. Assim como, não admira que os blogues tenham crescido, sobretudo, pelo caminho da análise e discussão, ainda que, infelizmente, haja poucas polémicas intelectuais. Poucas, no sentido qualitativo, e intelectuais, no sentido substantivo e não no de adjectivo (o que não é menos exigente). Mas prefiro que haja menos boas polémicas, do que não as haja de todo. Só as muito más, porque falsas, são de evitar.
O sentido da vida das notícias deriva e os blogues cresceram, qualificaram-se, hierarquizaram-se pela medida das páginas vistas e pelos demarcantes estratos intelectuais. Ainda assim, com melhores audiências que muitos programas de televisão, de notícias e sobre notícias, com comentadores. Além de que, um certo tipo de audiência no blogue é bem mais qualificada e influente do que a audiência televisiva. E porquê? Por várias razões, mas suspeito que, como mencionei em cima, sabe-se conversar pouco. As pessoas chatam, mas não dialogam. Ninguém responde a ninguém. Todos fingem ouvir. Não há diálogo, há monólogos cruzados. O mesmo acontece nos gabinetes, nos restaurantes, nos cafés, nas casas de amigos, nas aulas, nos centros comerciais, nos partidos, etc. Na televisão, é aparecer ou morrer, o resto é conversa barata.
Parece eclodir na nossa sociedade uma nova dimensão da surdez, outrora física, hoje, física e comunicacional ou intelectual. Ninguém ouve ninguém, todos estão a preparar a palavra certa para interromperem, a frase assassina para arrasarem o interlocutor, a postura do tronco, as expressões do rosto, a estratégia publicitária do discurso, mesmo para amigos, pois o importante é ganhar e não convencer fundadamente, correr bem é falar muito e melhor do que o outro. falar, refira-se, falar. Eis, provavelmente, uma das causas de expansão dos blogues: aqui, existe a palavra e a palavra acima de tudo. Imagens são complementares. Se é bonito ou feio, é para este efeito irrelevante. Homem ou mulher, idem. O importante adquire-se por si: há tempo para pensar e espaço para escrever, e ideias para sufragar ou contra-argumentar, satisfaz, portanto, o «bicho da crítica». Não há pressão, a não ser a boa, a da responsabilidade, da transparência e da exposição pública. Nos blogues não temos que ser retóricos, antes argumentativos, sob pena de não voltarmos a ser lido pela mesma pessoa ou, então, a ser lido apenas por quem se interessa por nós ou por certo tipo ou tema de escrita.
Na verdade, está a ficar insuportável ouvir notícias, intolerável o nível e o tratamento educacional dos cidadãos mais jovens e a tendência autista dos “dialogantes” que atravessa todas as idades, com excepção, talvez, dos idosos. A informação, o conhecimento e a capacidade crítica, são critérios ainda indutores do atraso da sociedade portuguesa. E parece que não há luta por eles que não resulte somente em uma aparente esperança. Continue-se com as políticas e estratégias políticas e pessoais de prevalência do «parecer», do «título», e assista-se à insustentável leveza do «ser».
sexta-feira, 25 de maio de 2007
ESPUMAS XXXVII
Querem um indicador actual da importância que a maioria das pessoas dá a um autêntico e justo diálogo?
Se sim, façam o seguinte exercício: Há quanto tempo, ou melhor, em toda a vossa vida, quantas vezes ouviram alguém dizer Eu quero ouvir o que tens para me dizer?
"I Want To Hear You What You Have Got To Say" - The Subways
Por outro lado, querem um indicador actual de como a espuma se tornou rainha - e se converteu em entidade superior ao próprio mar -, ou seja, de como as pessoas adoram falar e falar e falar (roll and roll and roll) sobre quase tudo e martelar e martelar e martelar (rock and rock and rock) sobre quase toda a gente e frequentemente com muito pouco valor, seja para o que for?
Se sim, tentem responder ao seguinte: Quantas vezes vêem uma pessoa com obra (no sentido lato) numa certa área expressá-la com humildade, profundidade e simplicidade?
E já agora, tenham paciência, e façam mais estas:
São poucos ou muitos, isto é, são milhares ou milhões?
São vidas antigas ou novas, isto é, desta era ou das anteriores?
E, enfim, natural, proporcional e hegemonicamente, são estrangeiros ou portugueses?
"Rock & Roll Quen" - The Subways
Se sim, façam o seguinte exercício: Há quanto tempo, ou melhor, em toda a vossa vida, quantas vezes ouviram alguém dizer Eu quero ouvir o que tens para me dizer?
"I Want To Hear You What You Have Got To Say" - The Subways
Por outro lado, querem um indicador actual de como a espuma se tornou rainha - e se converteu em entidade superior ao próprio mar -, ou seja, de como as pessoas adoram falar e falar e falar (roll and roll and roll) sobre quase tudo e martelar e martelar e martelar (rock and rock and rock) sobre quase toda a gente e frequentemente com muito pouco valor, seja para o que for?
Se sim, tentem responder ao seguinte: Quantas vezes vêem uma pessoa com obra (no sentido lato) numa certa área expressá-la com humildade, profundidade e simplicidade?
E já agora, tenham paciência, e façam mais estas:
São poucos ou muitos, isto é, são milhares ou milhões?
São vidas antigas ou novas, isto é, desta era ou das anteriores?
E, enfim, natural, proporcional e hegemonicamente, são estrangeiros ou portugueses?
"Rock & Roll Quen" - The Subways
sábado, 19 de maio de 2007
ESPUMAS XXXVI
Pela água que faço perscrutar nas minhas mãos acredito desplantar a pobreza de seres vivos e desiguais, com vida e sem mais, caracteres sem carácter, gente da nova mundial nação, de Cristo ao Islão. Não há como poder, o sentido é esquecer, a solução da puerilidade não cresce, que resta então? Despertar. Despertar, fora das águas que nos lavam e das mãos que nos limpam. Apenas e não só, pois não é pouco. Fora das ideias senectas, das companhias aparentemente cômpares, fora dos nossos povoados ludreiros, espaços archoteados sem luz ou clarão; há muito que assim não o deviam ser: micro-mundos de frágil política; neles nunca vi saída, sentido ou solução. Neles há muito pouco onde escrever.
sexta-feira, 16 de março de 2007
ESPUMAS XXXV
Uma das felicidades que me suscita a audição de canções é a sensação de evolução qualitativa e distintiva musical dos nossos gostos (para melhor ou pior, todos os caminhos são legítimos). É mais do que um prazer ouvir certas músicas e apontar outras tantas como pontos temporais fundamentais para o nosso crescimento musical, para a nossa capacidade crítica de distanciamento necessária para melhor compreender toda a cronologia do nosso juízo melómano. Um dia escreverei as músicas da minha vida, é um projecto meramente pessoal, mas reconheço que é importante para apurarmos o gosto e o sentido da música que se ouve e faz e lembrar-nos a humildade que não podemos perder. Digo-o para a música, como também pode ser dito para os nossos filmes, livros, autores, frases, amigos e desconhecidos, erros, decisões, paixões, desamores, ou seja, todas as nossas ondas da vida, sim, as melhores e as piores ondas da nossa vida. O melhor indicador da importância deste ‘inventário’ crítico é a surpresa de sensações quando revisitamos estes inúmeros lugares da nossa acesa caminhada. Como se o conhecimento de si mesmo dependesse da avaliação do produto da união do ser com o saber. Nem mais, nem menos volume. Apenas o nosso.
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
ESPUMAS XXXIV
Fiquei de saber se há mais alguém para salvar e não encontro ninguém. Foram-se todos embora?! Ou será que ainda não me viram... está frio aqui, não admira que não se veja vivalma aqui. O caminho era este, guardei todas as directrizes na minha cabeça, que costuma ser infalível. Mesmo a dormir, prefiro guardar tudo na minha mente. Assim posso racionalizar, esta grande liberdade iluminista fora de moda. Pensar pela nossa cabeça é uma ingenuidade. Só os loucos acreditam na força do indivíduo, réstia da emancipação da existência humana. Não sei em rigor porquê, mas o inimigo é invisível, omnipresente. Todo o cuidado é pouco. Ficarei aqui sentado mais um pouco, alguém há-de aparecer. Não haverei de ficar aqui sozinho. Tanta gente a querer ser salva e depois ninguém aparece para a absolvição?! Pareceria estranho outrora, senão mesmo absurdo. A primeira luz da madrugada tarda em chegar. Daqui a pouco acordo e ainda julgo que estava a sonhar... Na verdade, está um silêncio de sono... Este lugar é deveras estranho. Ou perdi-me ou fui o único a conseguir chegar? É apenas uma dúvida, de quem atinge algo com sucesso ou chega a algum lugar ermo desconhecido em estado consciente… estou?
quinta-feira, 7 de dezembro de 2006
ESPUMAS XXXIII
Talvez aquele homem não conheça a fundo tudo o que diz, mas a regra nunca confirma a excepção. Tinha uma forma muito própria de comunicar o sentido das suas palavras, raramente atingindo a sabedoria do que ficava por dizer. O silêncio tinha uma voz própria no contexto dos seus discursos. Ouvia-se o que estava para além do modo assertivo como combinava a palavra e a respectiva postura coloquial de cada uma. Desafiava a plateia como ninguém e era tão fácil entendê-lo. Fluíam as ideias no espaço por onde deambulavam os tiros de raciocínio das pessoas que assistiam à sua prelecção. O seu lema catalogava-se na arte de fundamentar um pensamento de cada vez. Rubrica difícil de entender, apesar de não ser surpresa nele. Não era uma oferta, mas um brinde para quem se esforçava por estar presente. Já não há pessoas assim, sem pressa de estar e de falar, e muito menos espectadores do fim e do significado da mensagem. O tempo não corre a favor destes, bem pelo contrário. O tempo não pára, antes é devorado pelos seus utilizadores contra a corrente dos dias. Quando vejo e ouço o discurso deslegitimado daquele homem, criatura que nunca conheci pessoalmente – e desconfio que exista verdadeiramente -, tento sublinhar em mim, sempre que possível, que o argumento é a construção humana mais apurada de que a razão se pode servir para combater o tijolo das opiniões desguarnecidas e preconceituosas, alimentando o mundo em que estamos mergulhados. Instrução deficiente, educação frágil, crescentemente. E os tempos mudam, paradoxalmente sobre as estacas da denegação de outrora. O tijolo avança e avança, quase freneticamente. Até ao ponto em que mais difícil e caro de educar, é, cada vez mais, ensinar. Ou, no melhor sentido de vida daquele homem, comunicar em deliberação.
quarta-feira, 16 de agosto de 2006
ESPUMAS XXXII
As histórias de amor existem e os contados amores também, o problema é que raramente acabam com a morte. Elas terminam antes. Não seria um problema se a nossa morte não fosse certa. Se a vida termina um dia, se é possível o amor gerador de felicidade entre seres humanos, qual é, então, o verdadeiro problema? Pois, precisamente por isso, a vida é curta, e os amores também. Não se pode deixar de acreditar, mais do que uma questão de fé, é uma questão de saudável sobrevivência. Algumas pessoas fantasiam grandes amores, outras convencem-se que não precisam deles para serem felizes, mas a necessidade dos mesmos está no quotidiano honesto e consciente, num qualquer recanto confortavelmente conhecido e definido pela nossa marca. Ignorá-lo é adiar o sofrimento de quem não o tem, que pode deixar um rasto para toda a vida. Pior cego é aquele que não pensa o que vê, com todos os olhos que a natureza humana lhe deu. O amor existe e precisamos dele, de todos eles. Nem que seja do próprio, do tipo altruísta naturalmente, o que não nos serve, antes é para oferecer. O amor, mais do que um sentimento, é uma História, da nossa, dos outros, de todas as coisas que nos dão valor. E por muitas histórias que se atravessem. É portanto uma história de vidas. Pensando bem, uma história de amor findar na morte não é um verdadeiro problema, pelo contrário, basta que tenhamos, até ao nosso fim, uma vida cheia de amor para dar. Assim feito e, na realidade, a morte imitará a vida.
NCR
NCR
segunda-feira, 10 de julho de 2006
ESPUMAS XXXI
Cada vez mais acredito que só se pode ter tudo quando pouco se quer. O tudo é uma abstracção, ninguém sabe o que é o tudo, pela simples razão de o seu autor nada saber, ao certo, sobre ele: nós. O tudo está nesse nós, um emaranhado de laços que fazem um eu, ímpar e abastado. Se imaginarmos o ser humano como um conjunto de nós, desde os ossos ao seu último reduto, os pêlos, quem consegue descobrir o primeiro e o último endereço desse sentido? Ou seja, onde está a definição do tudo o que somos ou do pouco que temos? Talvez o princípio das diversas respostas esteja na realidade que construímos com o nosso imenso eu: a respiração e a aspiração, e a transpiração para quem não se concentra no todo. O produto é a nossa riqueza, única e singular. Então, assim como os nós só podem ser nós, com certeza o melhor caminho para os nossos objectivos é sermos o que mais ninguém pode ser com o nosso eu. Se o nós implica convergência e unidade, o eu, pelo contrário, é compósito e não tem igual. E como é a diversidade a nossa magnificência, deixemos, assim, o pouco para quem tudo quer.
NCR
NCR
quinta-feira, 6 de julho de 2006
ESPUMAS XXX
Nos tempos que correm, porque verdadeiramente são outros, o amor parece-se cada vez mais com uma estrela. Reflectida na retina, está sempre lá, no céu, ninguém diria que já lá não está, que é um mero rasto passageiro do que foi. Também não se pode chegar muito perto dela, porque cega os olhos de quem se aproxima ou a toca, mas não pode ser muito longe, pois nega o vislumbre de toda a sua beleza.
Então, a meia distância é a mais duradoura e frutífera relação que podemos ter com uma estrela – como quem tudo não quer, tudo não perde -, e é a melhor posição para se ver o seu mais brilhante sorriso, todos os dias.
Assim, no meio, aqui sim, está o rosto ideal da felicidade.
NCR
Então, a meia distância é a mais duradoura e frutífera relação que podemos ter com uma estrela – como quem tudo não quer, tudo não perde -, e é a melhor posição para se ver o seu mais brilhante sorriso, todos os dias.
Assim, no meio, aqui sim, está o rosto ideal da felicidade.
NCR
segunda-feira, 26 de junho de 2006
ESPUMAS XXIX
«A verdade, no fim do dia, é o que conta mais para as nossas vidas». Esta foi a última frase que li no rodapé de uma série que procura, em tempo actualizado, ser real. Não sei se é assim. Não sei sequer se existe a verdade. Porventura, nem é importante a verdade. Na maioria dos casos, a verdade não tem efeitos. Se uma criança faminta disser que está com fome, diz a verdade, mas isso não significa que tenha algo para comer ou que alguém lhe forneça comida. Se um velhote só e sem casa escrever no cartão que o abriga a sua condição, escreve a verdade, ainda que passem centenas de pessoas por ele todos os dias, e daí também não significa que consiga alguém para lhe fazer companhia. Existe a verdade? Não, mas existem muitas verdades. O que é uma verdade? Todos nós a temos. Não há alma que não procure a sua. Uns, mais pelas palavras do que pelos os actos, outros, mais pelos actos que dos sentimentos, aqueloutros, mais pela emoção que pela razão, e todos os outros, buscam-na na vice-versa de todos os outros. Uma coisa é certa: a verdade de cada um, simultaneamente, não consegue mentir nunca, ao mesmo tempo, toda a gente e para sempre. E é isso que falta a muita gente, gente boa, em busca desse Graal antídoto da artificialidade, arqui-inimiga da verdade, da nossa verdade. A verdade é, portanto, um conceito construtor, a arquitecta do destino. A descoberta da nossa verdade é a vida do seu sentido. Uma busca que põe à prova, diariamente, a nossa naturalidade e espontaneidade contra os benefícios da imagem e da reserva mental. Até os que não querem são tentados a fazê-los, e fazem-no. No mundo em que vivemos transformou-se quase numa necessidade de sobrevivência. Daí o perigo da falta de verdade. Daí o abrigo da verdade, da verdade de cada um, ser tão acessível pela conduta de cada um. O ser humano é uma imensa verdade, eis pois porque a verdade deve começar por aí. Por cada um. E se se for verdadeiro para si através das pessoas com as quais se convive, da casa à comunidade, a verdade não apenas conta, como contagia. Tem efeitos. E assim, espera-se, se contribui para um mundo melhor.
NCR
NCR
terça-feira, 16 de maio de 2006
ESPUMAS XXVIII
Onde está a história daquele corpo, a velha história, aquela que sempre se repete. Onde é que ele nasceu? De uma ideia? De uma experiência? Onde está a estrutura que não é visível? A olho nu não se consegue ver, nem um fotograma! Onde estão os seus electrões?! O corpo esvai-se tão depressa, será assim, ou não se vê de todo para além do que é permitido? E quem permite? E quem o controla? Onde está o famoso filtro da legitimidade colectiva? Alguém de nós, humanos, deu autorização para ofuscarem a nossa visão? E porque eu, eu mesmo, não consigo ver beleza naquela maravilha? Será porque a beleza é uma construção social? Será do astigmatismo que me assola? Quem faz parte dessa somatófila construção? Quem são os pedreiros? Não somos todos nós? Ou não passamos de porteiros dos corpos das notícias inúteis? Lê-se, vê-se e tudo parece que nada fica. Se não houvesse imagens por um dia, ficávamos mais ignorantes? Não me parece. Já nada me parece, a bem ver. Que noite caleidoscópica de espasmos inquisitórios!...Vou dormir. Boa noite.
NCR
NCR
sexta-feira, 12 de maio de 2006
ESPUMAS XXVII
- Sabes, já estou velho, embora mais sábio, como todos os velhos. E os velhos sábios, e conscientes, gostavam de transmitir aos jovens o caminho da felicidade, ou melhor, o caminho de vários caminhos, a verdadeira felicidade, aquela que só com a idade é reconhecida o seu valor; mas os jovens não os ouvem, assim como eles próprios, quando eram jovens, não valorizavam qualquer conselho ou opinião sobre um certo sentido de orientação das suas vidas. Quando somos novos, qualquer conselho é sinónimo de restrição á sua liberdade e vontade.
- E qual é esse caminho da felicidade?
- Antes de mais, convém teres noção de que o caminho da felicidade não é feito de momentos sempre felizes, porque a felicidade é um fim nem sempre presente em todas as estradas do seu destino. É um caminho que exige, por vezes, não pensar somente na actualidade diária. É importante ter esta noção, para que não se pense que estamos perante uma única via da plena ventura e fortuna, ou um segredo sagrado da felicidade ou mesmo um atalho facilitador e miraculoso para se chegar à felicidade.
- E o caminho é?...
- É tão simples que raros são aqueles que acreditam nele. Tão simples e tão conhecido, mas ainda assim de complexa integração no nosso comportamento.
- O avô seguiu-o?
- Com a tua avó sim, no amor consegui, depois de todas as tropelias que nos passam pela cabeça e das dificuldades que atravessámos. No resto, acho que também tentei sempre ser uma pessoa honesta, sobretudo comigo mesmo.
- Mas, avô, ainda não se referiu ao caminho, ou melhor, a um dos caminhos da felicidade...
– Pois o caminho, como é fácil desviar-nos dele, até falar dele. O caminho é seguires o teu coração, o centro de tudo o que somos, mas nem sempre o reflexo daquilo que fazemos.
- Seguir o coração é muito vago
- A falta dele ainda é pior.
- Para além disso, acarreta sofrer muito, vermos em nós o que não gostamos nos outros, ou mesmo acabar com as nossas ilusões ou sonhos de juventude!
- Tens razão, mas falta-te o resto de toda ela. Seguindo o coração, não sofrerás mais do que a sua alternativa, que é evitá-lo, jamais verás em ti o que detestas nos outros e, quanto às ilusões e os sonhos, bem, só posso dizer que se completares poucos e bons, e que sejam verdadeiramente teus, já cumpres uma vida feliz.
- Ir aonde o coração nos leva parece, de facto, simples, demasiado simples, mesmo…
- O receio e a insegurança tolha-nos por vezes a razão, mas é pior quando nos colhe o coração. Como vejo e oiço muitos da minha idade, eles e elas. Eu tive a sorte de seguir o meu caminho e, de alguma forma, sinto-me bem, julgo que é um grande passo para a felicidade. A imagem que muitos dos meus amigos me dão é terrível: deitados nas suas camas, martirizando-se com viagens diárias a décadas passadas, questionando, indagando, combatendo, precisamente essas ilusões e sonhos que não prosseguiram, depois de toda uma vida aparentemente abundante e recheada de pessoas e bens.
- Está a dizer que seguindo-se esse caminho que fala, a ilusão e a frustração não vem no final, ou seja, quando menos se precisa dela?
- É um pouco isso, e dá-nos a sensação que afinal de contas fomos sempre felizes. Diz-me, durante toda a tua ainda curta vida, reflectindo sobre o teu passado, as pessoas e as coisas que escolheste com o coração, não foram as mais importantes, independentemente do presente da tua relação com essas pessoas e bens?
- Foram as mais marcantes… e felizes, de facto, agora que me coloca a pensar nisso. Em todas as minha escolhas, por muito pequenas que tivessem sido, lembro-me delas como se ainda as vivesse hoje, o meu brinquedo preferido, os meus lugares, os livros, as raras paixões que tive, os momentos da sua realização, ainda que contra a racionalidade que estavam subjacentes a essas escolhas
- Actualmente, a razão tem uma grande aliada, quase inexistente no meu tempo: a ditadura da primeira oportunidade. Os tempos de hoje, como já deves ter-te apercebido, não oferecem segundas oportunidades. Na amizade, no amor, no desempenho profissional, não se pode falhar à primeira, porque raramente será dada uma segunda oportunidade. Não há tempo para o esforço, que dificilmente oferece bons resultados imediatos.
- Como diz um amigo meu quando saímos à noite, andamos a procurar ouro em lojas dos trezentos!
- De alguma forma, temos tudo ao nosso alcance, as pessoas são livres, por vezes nos limites com o livre arbítrio, tudo é barato, acessível, imediato, cómodo, indolor. Não há censura social para a desistência, a invocação da felicidade, paradoxalmente, serve também para a falta dela.
- As coisas ou dão ou não dão, ou dá prazer ou não se atura, ou sim ou sopas!
Tendo em conta o mundo que nos rodeia, e que de alguma forma vive em nós por interacção, acho que é muito difícil saber seguir o coração...
- O coração indica-nos o dever-ser, a razão apenas justifica a realidade e não explica o sonho. É a diferença entre o futuro e o presente, o eterno presente.
- Mas quem hoje pensa no futuro, avô? Nem com os olhos, quanto mais com o coração!
- Se o caminho fosse fácil, não era com certeza o da felicidade. E mesmo que o fosse, por miraculosas forças transcendentais, a felicidade tinha deixado de ser o que é hoje.
- Sim, mas é como ser-se honesto consigo próprio, o dia-a-dia em que vivo e trabalho, o comportamento e os objectivos das pessoas da minha geração já não têm nada que ver a ver com os do tempo do avô!
- Agora fizeste-me sorrir, mas não leves a mal. É que eu disse o mesmo ao meu avô e ele respondeu-me com a simplicidade que só a idade hoje me permite reconhecer e que te repito: «oxalá a tua vida culmine na velhice e descubras a razão do coração antes de lá chegares». Pouco mais te posso aconselhar, meu neto, mas asseguro-te, por muitas dúvidas naturais que tenhas quanto ao que te digo, também eu passei por elas. Contudo, esforça-te por aperceber-te que a história de gerações e gerações sucessivas será sempre corroborada pela nossa própria vida. O desenvolvimento económico, social, cultural, educacional, evolui ao longo dos tempos, é certo, mas as escolhas que os humanos faziam há dois mil anos são as mesmas de hoje. Todo o ser humano escolhe, na amizade, no amor, na família, no sucesso. A felicidade é também uma escolha, uma opção na dúvida. Assim como ouvir os velhos (sorriso).
- Eu oiço-o, sim. Disso não duvide!
- É um bom princípio. A felicidade não é uma ciência, nem é feita de palavras. Se fosse, bastava-nos um bom argumento para a atingir. E todos sabem, incluindo os jovens, o quanto isso é insuficiente.
NCR
- E qual é esse caminho da felicidade?
- Antes de mais, convém teres noção de que o caminho da felicidade não é feito de momentos sempre felizes, porque a felicidade é um fim nem sempre presente em todas as estradas do seu destino. É um caminho que exige, por vezes, não pensar somente na actualidade diária. É importante ter esta noção, para que não se pense que estamos perante uma única via da plena ventura e fortuna, ou um segredo sagrado da felicidade ou mesmo um atalho facilitador e miraculoso para se chegar à felicidade.
- E o caminho é?...
- É tão simples que raros são aqueles que acreditam nele. Tão simples e tão conhecido, mas ainda assim de complexa integração no nosso comportamento.
- O avô seguiu-o?
- Com a tua avó sim, no amor consegui, depois de todas as tropelias que nos passam pela cabeça e das dificuldades que atravessámos. No resto, acho que também tentei sempre ser uma pessoa honesta, sobretudo comigo mesmo.
- Mas, avô, ainda não se referiu ao caminho, ou melhor, a um dos caminhos da felicidade...
– Pois o caminho, como é fácil desviar-nos dele, até falar dele. O caminho é seguires o teu coração, o centro de tudo o que somos, mas nem sempre o reflexo daquilo que fazemos.
- Seguir o coração é muito vago
- A falta dele ainda é pior.
- Para além disso, acarreta sofrer muito, vermos em nós o que não gostamos nos outros, ou mesmo acabar com as nossas ilusões ou sonhos de juventude!
- Tens razão, mas falta-te o resto de toda ela. Seguindo o coração, não sofrerás mais do que a sua alternativa, que é evitá-lo, jamais verás em ti o que detestas nos outros e, quanto às ilusões e os sonhos, bem, só posso dizer que se completares poucos e bons, e que sejam verdadeiramente teus, já cumpres uma vida feliz.
- Ir aonde o coração nos leva parece, de facto, simples, demasiado simples, mesmo…
- O receio e a insegurança tolha-nos por vezes a razão, mas é pior quando nos colhe o coração. Como vejo e oiço muitos da minha idade, eles e elas. Eu tive a sorte de seguir o meu caminho e, de alguma forma, sinto-me bem, julgo que é um grande passo para a felicidade. A imagem que muitos dos meus amigos me dão é terrível: deitados nas suas camas, martirizando-se com viagens diárias a décadas passadas, questionando, indagando, combatendo, precisamente essas ilusões e sonhos que não prosseguiram, depois de toda uma vida aparentemente abundante e recheada de pessoas e bens.
- Está a dizer que seguindo-se esse caminho que fala, a ilusão e a frustração não vem no final, ou seja, quando menos se precisa dela?
- É um pouco isso, e dá-nos a sensação que afinal de contas fomos sempre felizes. Diz-me, durante toda a tua ainda curta vida, reflectindo sobre o teu passado, as pessoas e as coisas que escolheste com o coração, não foram as mais importantes, independentemente do presente da tua relação com essas pessoas e bens?
- Foram as mais marcantes… e felizes, de facto, agora que me coloca a pensar nisso. Em todas as minha escolhas, por muito pequenas que tivessem sido, lembro-me delas como se ainda as vivesse hoje, o meu brinquedo preferido, os meus lugares, os livros, as raras paixões que tive, os momentos da sua realização, ainda que contra a racionalidade que estavam subjacentes a essas escolhas
- Actualmente, a razão tem uma grande aliada, quase inexistente no meu tempo: a ditadura da primeira oportunidade. Os tempos de hoje, como já deves ter-te apercebido, não oferecem segundas oportunidades. Na amizade, no amor, no desempenho profissional, não se pode falhar à primeira, porque raramente será dada uma segunda oportunidade. Não há tempo para o esforço, que dificilmente oferece bons resultados imediatos.
- Como diz um amigo meu quando saímos à noite, andamos a procurar ouro em lojas dos trezentos!
- De alguma forma, temos tudo ao nosso alcance, as pessoas são livres, por vezes nos limites com o livre arbítrio, tudo é barato, acessível, imediato, cómodo, indolor. Não há censura social para a desistência, a invocação da felicidade, paradoxalmente, serve também para a falta dela.
- As coisas ou dão ou não dão, ou dá prazer ou não se atura, ou sim ou sopas!
Tendo em conta o mundo que nos rodeia, e que de alguma forma vive em nós por interacção, acho que é muito difícil saber seguir o coração...
- O coração indica-nos o dever-ser, a razão apenas justifica a realidade e não explica o sonho. É a diferença entre o futuro e o presente, o eterno presente.
- Mas quem hoje pensa no futuro, avô? Nem com os olhos, quanto mais com o coração!
- Se o caminho fosse fácil, não era com certeza o da felicidade. E mesmo que o fosse, por miraculosas forças transcendentais, a felicidade tinha deixado de ser o que é hoje.
- Sim, mas é como ser-se honesto consigo próprio, o dia-a-dia em que vivo e trabalho, o comportamento e os objectivos das pessoas da minha geração já não têm nada que ver a ver com os do tempo do avô!
- Agora fizeste-me sorrir, mas não leves a mal. É que eu disse o mesmo ao meu avô e ele respondeu-me com a simplicidade que só a idade hoje me permite reconhecer e que te repito: «oxalá a tua vida culmine na velhice e descubras a razão do coração antes de lá chegares». Pouco mais te posso aconselhar, meu neto, mas asseguro-te, por muitas dúvidas naturais que tenhas quanto ao que te digo, também eu passei por elas. Contudo, esforça-te por aperceber-te que a história de gerações e gerações sucessivas será sempre corroborada pela nossa própria vida. O desenvolvimento económico, social, cultural, educacional, evolui ao longo dos tempos, é certo, mas as escolhas que os humanos faziam há dois mil anos são as mesmas de hoje. Todo o ser humano escolhe, na amizade, no amor, na família, no sucesso. A felicidade é também uma escolha, uma opção na dúvida. Assim como ouvir os velhos (sorriso).
- Eu oiço-o, sim. Disso não duvide!
- É um bom princípio. A felicidade não é uma ciência, nem é feita de palavras. Se fosse, bastava-nos um bom argumento para a atingir. E todos sabem, incluindo os jovens, o quanto isso é insuficiente.
NCR
segunda-feira, 17 de abril de 2006
ESPUMAS XXVI
«Ter medo é uma coisa, dizer não é outra. O medo não nos impede de avançar, o não é a decisão de parar.
Não se pode ter medo de amar e depois não acreditar nele para sempre. Isto é uma contradição em si mesmo. Porque quem não acredita numa relação amorosa duradoura, é precisamente aquele que não deve ter medo de amar, alguém para quem a vida é uma vasta terra de pinga-amores. E, inclusivamente, deveria apaixonar-se com mais facilidade, estando, por isso, mais aberto a essa grande aventura que é o amor.
Nas aventuras o medo é essencial, senão não é aventura. Ele é a fonte do prazer, é o que nos faz avançar e desfrutar dessa inebriante viagem dos sentidos. Aqueles que têm medo, raramente se aventuram, logo, não admira a imensa vontade de desejo de liberdade, ainda que ilusória, e o frenético desamarrar das grilhetas onde cai a base das suas vidas. Andarão sempre à deriva e à procura de algo que tudo fazem para não saber o que é. A aventura, no amor, é uma coisa séria, não tem é que ser para sempre. Aliás, só será aventura quando se luta por um amor para sempre. A busca é solitária, interior e Inspirada, nele ou nela, sempre num grande amor. O medo de amar não nos vale, se preenchemos a nossa vida com um conjunto de alguéns, um conjunto de ninguéns para o nosso coração. É duro, mas é o caminho. Até porque a maior solidão é aquela que se sente quando acompanhado.
Nesta busca, a grande questão é esta: alguém aguenta uma vida inteira, nem por um dia, mesmo no fim dos seus dias, jazido algures numa inofensiva cama, sem nunca poder dizer que - contra tudo e contra todos, acima de fundos e mundos -, despediu-se do seu velho corpo, da limitada alma, da anã rotina, e abraçou o que sempre quis e por quem eternamente esperou? Da resposta depende a procura. Da procura constrói-se o passado, o lugar para onde estamos habituados a dirigir as nossas perguntas. Alguém costuma fazer perguntas para o futuro? Claro que não. As perguntas para o futuro vão sempre em forma de desejo, não são verdadeiras questões. Então, perguntemos: quem pode dizer que sofre mais aquele que nunca conseguirá dizer, tranquilamente, que tudo fez para ser feliz pelo menos uma vez?»
NCR
Não se pode ter medo de amar e depois não acreditar nele para sempre. Isto é uma contradição em si mesmo. Porque quem não acredita numa relação amorosa duradoura, é precisamente aquele que não deve ter medo de amar, alguém para quem a vida é uma vasta terra de pinga-amores. E, inclusivamente, deveria apaixonar-se com mais facilidade, estando, por isso, mais aberto a essa grande aventura que é o amor.
Nas aventuras o medo é essencial, senão não é aventura. Ele é a fonte do prazer, é o que nos faz avançar e desfrutar dessa inebriante viagem dos sentidos. Aqueles que têm medo, raramente se aventuram, logo, não admira a imensa vontade de desejo de liberdade, ainda que ilusória, e o frenético desamarrar das grilhetas onde cai a base das suas vidas. Andarão sempre à deriva e à procura de algo que tudo fazem para não saber o que é. A aventura, no amor, é uma coisa séria, não tem é que ser para sempre. Aliás, só será aventura quando se luta por um amor para sempre. A busca é solitária, interior e Inspirada, nele ou nela, sempre num grande amor. O medo de amar não nos vale, se preenchemos a nossa vida com um conjunto de alguéns, um conjunto de ninguéns para o nosso coração. É duro, mas é o caminho. Até porque a maior solidão é aquela que se sente quando acompanhado.
Nesta busca, a grande questão é esta: alguém aguenta uma vida inteira, nem por um dia, mesmo no fim dos seus dias, jazido algures numa inofensiva cama, sem nunca poder dizer que - contra tudo e contra todos, acima de fundos e mundos -, despediu-se do seu velho corpo, da limitada alma, da anã rotina, e abraçou o que sempre quis e por quem eternamente esperou? Da resposta depende a procura. Da procura constrói-se o passado, o lugar para onde estamos habituados a dirigir as nossas perguntas. Alguém costuma fazer perguntas para o futuro? Claro que não. As perguntas para o futuro vão sempre em forma de desejo, não são verdadeiras questões. Então, perguntemos: quem pode dizer que sofre mais aquele que nunca conseguirá dizer, tranquilamente, que tudo fez para ser feliz pelo menos uma vez?»
NCR
segunda-feira, 3 de abril de 2006
ESPUMAS XXV
O ser humano possui a capacidade de amar mais do que uma vez sucessivas pessoas, mas não antes de deixar de amar a última pessoa pela última vez. Não significa isto que o amor só se extinga com outro. Não há é novo amor, se o último ainda existe. Umas vezes, o amor extingue-se e pronto, está morto. Se foi bom, pensar nessa pessoa é como pensar numas férias, foram boas enquanto duraram. Se foi mau, deixa-se de pensar nela sequer, a não ser pelos piores motivos. Outra coisa é dizer-se que já não se ama, quando ainda se ama. Neste caso, o processo vai ser mais difícil e doloroso. Mais do que aquele que reconhece que ama o outro que não o ama. Porquê, se ambos sofrem à sua maneira? Porque naquele que reconhece, o sentimento desvanece-se saudavelmente, com o tempo. O que não reconhece enfrenta uma luta constante, contra si, obrigando-se a lembrar desse sentimento rejeitado. O sentimento pode nunca desaparecer. Fica latente. Neste tipo de comportamento, por muitas pessoas que passem, por muito que se casem ou que se separem, serão sempre pessoas acossadas, fugidas do passado. Os acontecimentos da vida, a final, não ganham aos sentimentos de quem os vive. Pode combater-se durante anos, até uma vida quase inteira, todavia, a batalha do coração é uma batalha donde saímos sempre perdedores. Contra esta evidência, não há pessoa que nos compense, não há casa que nos abrigue. Numa palavra, não há destino que nos valha.
A felicidade de tudo isto é que nós controlamos o destino de tudo aquilo que depende de nós e assim podemos fazer e sentir outras mil coisas na nossa vida, disfarçar sem querermos saber que o fazemos e ordenar as nossas prioridades e escolher os nossos parceiros. As escolhas da vida parecem-se muito com a nossa imagem, num restaurante, perante um menu. Nem sempre a escolha recai sobre o que verdadeiramente queremos. Temos que pensar na nossa saúde, no que vamos fazer a seguir, onde iremos estar e em que condições. Escolher é uma vontade. Por isso, querer é poder não querer, mas não se escolhe quem se ama. Não nos iludamos com o menu da vida, apesar de podermos tratar as pessoas a la carte. Porque, repito, nós escolhemos o nosso destino, nós escolhemos a pessoa com quem queremos estar, e para isso não precisamos de amá-la. Não há escolhas de amor, assim como à força ninguém ama. Ou se ama, ou não se ama. E tudo porque sim. Na lei do coração não há razão. Saber ler e viver de acordo com o que transportamos no coração é um grande e crescente desafio para todos nós.
Os nossos valores, e a idade, serão nossos aliados na construção de um melhor fim para as nossas vidas.
NCR
A felicidade de tudo isto é que nós controlamos o destino de tudo aquilo que depende de nós e assim podemos fazer e sentir outras mil coisas na nossa vida, disfarçar sem querermos saber que o fazemos e ordenar as nossas prioridades e escolher os nossos parceiros. As escolhas da vida parecem-se muito com a nossa imagem, num restaurante, perante um menu. Nem sempre a escolha recai sobre o que verdadeiramente queremos. Temos que pensar na nossa saúde, no que vamos fazer a seguir, onde iremos estar e em que condições. Escolher é uma vontade. Por isso, querer é poder não querer, mas não se escolhe quem se ama. Não nos iludamos com o menu da vida, apesar de podermos tratar as pessoas a la carte. Porque, repito, nós escolhemos o nosso destino, nós escolhemos a pessoa com quem queremos estar, e para isso não precisamos de amá-la. Não há escolhas de amor, assim como à força ninguém ama. Ou se ama, ou não se ama. E tudo porque sim. Na lei do coração não há razão. Saber ler e viver de acordo com o que transportamos no coração é um grande e crescente desafio para todos nós.
Os nossos valores, e a idade, serão nossos aliados na construção de um melhor fim para as nossas vidas.
NCR
sábado, 4 de março de 2006
ESPUMAS XXIV
Passamos uma vida inteira a procurar alguém que amamos. Depois, desejamos mais do que tudo que essa pessoa nos ame. A seguir, difícil é viver esse amor uma vida inteira. Uma vida inteira ninguém sabe o que é. Quanto dura uma vida inteira? Qual o tamanho da nossa vida? Qual o tamanho desse amor? Nem sabemos do que ele é feito, quanto mais saber o seu tamanho. Pouca gente sabe - apesar de cada vez serem mais -, o amor é dor. E sofrer é coisa que este mundo não nos ensina. A euforia hedonista é o limite e o objectivo das pululantes vidas que rodeiam a essência da nossa socialidade. Viver um amor exige conhecermos muito bem a nós próprios. As nossas fraquezas, os nossos defeitos, as nossas incapacidades. Ninguém consegue amar outrém verdadeiramente sem pôr em causa o seu próprio sentido de vida. E mesmo que esse amor dure uma vida inteira, mesmo que esse alguém nunca tenha posto a si própria a pergunta: quem sou eu?, esse suposto amor não passa de uma ilusão. É compaixão, muito popular no mundo antigo. O mundo actual está para o amor como a maioria dos católicos está para a Bíblia: muito poucos a leram. E é necessário para ser-se católico? Não. Mas como se pode viver o catolicismo autenticamente sem ler o seu livro fundador? Assim somos nós perante o amor. Talvez ir ao fundo dele seja um risco, envolva um esforço, implique sermos sérios com o que somos e desejamos, ou dizemos que somos ou desejamos. Mas, paradoxalmente, qual um milagre ou uma visão de uma qualquer sobrenaturalidade, um sinal desse amor ocorre quando o vimos: trememos de forma notória, o coração bate à fórmula um, os lábios conflituam-se e deles saem muitas poucas palavras, às vezes nenhumas. A linguagem corporal não engana ninguém e muito menos o seu autor. Por muito que se discurse em sentido contrário, por muitas gavetas criadas para fechar de vez a pessoa avistada, por enorme trabalho de auto-convencimento e mentalização que a vida não deixa de ser feliz sem essa pessoa, por muito que se gele o coração, o corpo não engana. Os olhos não enganam. Porque o amor só não é possível, entre gente que se ama, por quem simplesmente tem medo de si próprio. O medo que resulta de algo que exige destruir os nossos confortáveis mitos e construir os pesados pilares de uma relação. Afinal, construir é suor. É sacrifício. É dor. Um dos paradoxos do amor deriva deste quadro: raramente optamos por ficar com ele, seja por ignorância, seja por racionalidade. É mais fácil fazermos dele um mal amor ou um amor impossível. Mas impossível também é evitar demonstrá-lo. Quem foge de si próprio, foge toda a vida. E provavelmente será infeliz. Os finais felizes só os anjos sabem. São feitos por eles. Não se nasce anjo e ninguém ensina a ser um. Passamos a vida a encontrar o nosso anjo, mas depois não temos vida para ele. É o mundo com o qual andamos todos ocupados. Incluindo namoros, casamentos e amizades coloridas. Quem pensar que está livre deste cenário amoroso, sugiro que desça a terra. Sugestão de quem sempre amou e sempre foi amado.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006
ESPUMAS XXIII
Viver numa fotografia e viver para a fotografia. Dois modos de vida de uma mesma vida. De uma mesma. de uma apenas. Há gente que vive assim. A maior parte dela. Vai sendo gente, a pouco e pouco. Vamos todos. Todos somos gente. A humanidade vive nesta fotografia que costumamos chamar Terra Para nós, humanos, é tão pequena e está tão distante quanto a sua própria imagem vista do espaço. Depois, depois de toda a gente, temos a minoria, na qual, cada qual com a sua mania julga sempre pertence. É aquela grande gente, sim porque os outros são sempre isso - os outros.
Mas nós não, somos os que vivem para a fotografia mas vivemos bem, sem precisar dela. Pois essa coisa de precisar dela, é para os outros. é que viver para a fotografia não é viver para a imagem. É muito mais do que isso. É criar as próprias imagens das imagens e, por tudo aquilo que rodeia ser construído por uma plasticidade e materialidade próprias das suas vaidades, dos seus interesses e das suas ambições. Ora aqui está um belo pedaço de vida. Um modelo de vida. Ou será uma vida modelo? Pouco importa. O importante é o que se vê. E, paradoxalmente, essas pessoas são tão aparentemente felizes... como uma fotografia pueril. Alguém discorda? Só por inveja, não?
NCR
sexta-feira, 13 de janeiro de 2006
ESPUMAS XXII
A mão acompanha o corpo na condução do destino. É segurada por um pulso dobrável mas firme, sobre as costas de uma amigo maior, raro e elegante, companheiro de todas as desventuras e desregras. É importante a sua razão de ser como fiel instrumento de uma causa maior. Sem ele, pode ser-se tudo, mas com ele é-se o que é. Sem artifícios da socialidade, o denominador de convivência da gente grande. Continuando por vales difíceis de atravessar, o eco dos desejos fecha-se sobre o emissor e o prazer de o atravessar é catártico. Poucas cabeças vão para além do que conseguem ouvir de si próprias...chamam-lhe individualismo, às vezes. Nada mais ilusório. É bem-estar. Se todas as almas fossem individualistas, compunham uma sociedade maior, mais harmoniosa, menos problemática, mais solidária. Não existe mais felicidade, existe prazer. O conceito gastou-se no corpo social, como solas nos sapatos. É dificil saber que o caminho é árduo, quanto mais atravessá-lo. E, para todos, há uma pergunta: como viver bem sem acreditar no bater da pele onde se habita?
O que resta da individualidade, ou seja, da humanidade? Vende prazer ou compra felicidade? O primeiro sai do corpo, o segundo conduz à alma.
NCR
terça-feira, 6 de dezembro de 2005
ESPUMAS XXI
Luís Brites
Há imagens que não valem apenas mais do que mil palavras, há imagens que valem mais que mil dias! Quase sempre que vejo uma árvore, um jardim e um banco recordo-me do filme Notting Hill, de Roger Michell, um filme grande em entretenimento e pequeno em qualidade geral. Estes três elementos naturais de um cenário apaixonado constituem uma simbiose romântica quase perfeita entre a Natureza e o Homem. O primeiro dá a terra e o fruto, o segundo constrói o banco e compõe-o numa sinfonia arrebatadora. É, assim, possível existir uma união construtiva, pacífica e frutífera entre o mundo natural e o ser humano. Mais difícil, contudo, por regra deveras mais difícil, é a arte de duas pessoas que se amam, estarem e viverem juntas; duas situações diferentes, mas que se complementam em termos de um projecto duradouro de relacionamento. Vem este post a propósito de uma história que li hoje, bem demonstrativa dessa espinhosa ambição:
Certa vez, na terra dos Sioux, o guerreiro Touro Bravo e a bela Nuvem Azul chegaram de mãos dadas à tenda do velho feiticeiro da tribo e lhe pediram:
- Nós nos amamos e vamos nos casar. Mas nos amamos tanto que queremos um conselho que nos garanta ficar sempre juntos, que nos assegure estar um ao lado do outro até a morte. Há algo que possamos fazer?
E o velho, emocionado ao vê-los tão jovens, tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse:
- Há o que possa ser feito, ainda que sejam tarefas muito difíceis. Você, Nuvem Azul, deve escalar o monte ao norte da aldeia apenas com uma rede, caçar o falcão mais vigoroso e trazê-lo aqui, com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia. E você, Touro Bravo, deve escalar a montanha do trono; lá em cima, encontrará a mais brava de todas as águias. Somente com uma rede deverá apanhá-la, trazendo-a para mim viva!
Os jovens se abraçaram com ternura e logo partiram para cumprir a missão.
No dia estabelecido, na frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves.
O velho tirou-as dos sacos e constatou que eram verdadeiramente formosos exemplares dos animais que ele tinha pedido.
- E agora, o que faremos? - perguntaram os jovens.
- Peguem as aves e amarrem uma à outra pelos pés com essas fitas de couro. Quando estiverem amarradas, soltem-nas para que voem livres.
Eles fizeram o que lhes foi ordenado e soltaram os pássaros. A águia e o falcão tentaram voar, mas conseguiram apenas saltar pelo terreno. Minutos depois, irritadas pela impossibilidade do voo, as aves arremessaram-se uma contra a outra, bicando-se até se machucar.
Então o velho disse:
- Jamais esqueçam o que estão vendo, esse é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão. Se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se como também, cedo ou tarde, começarão a machucar um ao outro. Se quiserem que o amor entre vocês perdure, voem juntos, mas jamais amarrados.
Desta lenda uma lição óbvia se retira: sem liberdade, não há amor duradouro. A liberdade é a plataforma para a felicidade e a convivência amorosas. Não é por acaso que a prisão é um castigo maior e a máxima das penas vividas pelo ser humano. Por sua vez, a liberdade é condição de qualidade, bem-estar comum e progresso humanos há muito provada pela História e comprovada pelas democracias liberais contemporâneas. Portanto, para o ser humano e para a sociedade, a liberdade é fundamental e já é adquirida nesse sentido. Todavia, e se ela é certa e perene entre o Homem e a Natureza, entre o Homem e a sociedade, entre humanos é um problema difícil e constante, quer em reconhecê-lo, quer em superá-lo. Como em qualquer jardim, difícil é povoar os seus bancos.
Qual é então o segredo do amor eterno? Não há segredos, ou fórmulas, ou poções mágicas, nem leis gerais ou definitivas no amor, apenas, dois princípios únicos, universais e globais nas relações humanas. O primeiro é que sem coração, não há união. Ou seja, sem verdade, não há liberdade. Estar numa relação de modo diferente é viver preso a uma ilusão, uma imagem, uma comodidade, uma espécie de relação de suporte virtual.
No último filme da trilogia Matrix, o cenário final devolvido à realidade situa-se num jardim, junto a um rio, cheio de árvores e relva e de chilrear matinal de aves despertas. Na outra margem, ao fundo, a sociedade iluminada pelo Sol, o elemento natural da esperança. E as últimas palavras do filme, pertencentes ao Oráculo sentado num banco de jardim, reportam-se ao epílogo desconhecido: não sabia, mas acreditava. Eu acreditava. Este é o segundo princípio. O amor é uma oportunidade de sermos livres e somos livres quando acreditamos nele. Sem crença nenhum amor tem futuro. Compreende-se, assim, a dificuldade de viver o amor para sempre. Exige excessivos valores a uma humanidade cuja realidade teima em desvirtuar.
NCR
quarta-feira, 30 de novembro de 2005
ESPUMAS XX
Irrita-me que os ditados populares sejam tão certeiros, dizia James abrindo os seus longos braços esguios ao mesmo tempo que enchia o copo de uísque a Michael. Como é que o povo, tão supostamente estúpido e analfabeto, consegue acertar tanto com os seus centenários ditos?! O segredo está na união que faz a força, ou seja, é através de um conjunto de pessoas unidas por gerações de hábitos e culturas sedimentadas que se forma um provérbio popular, respondia Michael. Talvez, uma espécie de ciência popular, dizes tu. Há, na verdade, ditados certeiros, defendia Michael, e o meu preferido é pela boca morre o peixe. Como as pessoas também. Só que estas, ao contrário dos peixes, não morrem, continuam a viver, e bem vivas; umas, fantasiadamente bem, outras verdadeiramente mal, outras ainda, ou as duas, ou nenhuma. Quanto mais moral é uma pessoa, continuava Michael, menor a necessidade de ditar regras, impor condutas, restringir atitudes, falar sobre isso e o seu comportamento. Agora, o moralista, a pessoa moralista possui um desvio negativo de carácter acentuado, muitoas vezes coberta por uma paranóia destrutiva do seu ambiente social e, inclusive, da sua própria saúde mental. Sem o saber claro, não é Michael? Sim, sem o saber, recordo-me de uma ex-namorada sua a quem se aplicava esta patologia na perfeição, sem o saber claro. Um dia vai saber, Michael. O meu ditado preferido, ao contrário do teu, é mais prosaico; é um ditado que já era o preferido da minha avó e julgo, não tenho a certeza, que já o era por sua vez da mãe da minha avó. E reza o seguinte: «cada um deita-se na cama que faz». Tão verdadeiro, quanto fatalista! Só que não sossega nada, nem ninguém. E pode ser bom e mau! É através do acreditar e do desacreditar, do alinhar e desalinhar, do agir e reagir que fazemos a nossa cama, não é, caro Michael? Cavamos o nosso inferno ou o nosso paraíso! A nossa sepultura ou a nossa felicidade! Vais comer o resto da torrada? Não, James, podes tirar. Então, que malefício vamos nós atribur hoje, desta vez, a este país pequenino e interesseiro, neste pequeno-almoço com vista sobre a cidade ribeirinha? Agora disseste uma boa verdade, James, interesseiro. Portugal é um país com povo, mas nada do povo, pois ninguém quer pertencer a ele. Todos pensam em ter uma 'quint'a, depois proteger a sua 'quinta' e, de preferência, com o mínimo de 'quintas' à sua volta. Achas que este povo é original, Michael? Não, não é, excepto numa coisa: na cultura temerária. É difícil de explicar, mas, apesar de tradicionalmente aventureiro, este povo parece-me que passa a vida com medo. Medo de viver, de amar, de se expressar, de morrer. Medo, medo, medo! Chama-lhe medo ou receio ou temor, também acho que é um pouco de tudo isso! Têm medo de se deitarem na cama que fazem! Ah, ah, boa...Pois, James, é uma mistura explosiva de facto, quando é o interesse pessoal e o medo de algo e dos outros que comandam as pessoas. Diria mais, Michael, o mal de portugal, país lindo e rico, é estar cheio de portugueses!
NCR
NCR
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