Cena: Times Square Garden
Filme: Vanilla Sky
Realizador: Cameron Crowe
Imaginem que aquele desejo que toda a gente já cometeu na vida ("Deixem-me em Paz! Desapareçam!"), acontecia. Pensem um pouco, profundamente, nessa realidade sonhada. A pergunta que se pode colocar de seguida é "Quantos minutos demoraria pedir que aparecessse alguém". Quantos?... E porquê? Por que somos assim? E, paradoxalmente, por que estamos sempre sozinhos nas nossas multidões pessoais e profissionais, sempre mergulhados no nosso interior? Por vezes, afogados nele. Uns mais, outros menos, porquê?
Mais do que a cena, importante é a oportunidade que ela nos oferece para reflectirmos sobre o nosso mundo... com os olhos bem abertos.
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
N ARIANES IX
Cena de Larry e Anna - em "Closer" (2004), de Mike Nichols
Esta cena é digna, para mim, de constar aqui no N ARIANES, mas por razões que ainda não são muito seguras e reflectidas, confesso. O que é facto é que marcou-me. Não pela excepcional interpretação de ambos, pois Julia Roberts teve num nível, diria, razoável e o Clive Owen no muito bom, como é seu apanágio.
A cena marca, julgo eu, porque em "filme ao estilo hollywood" nunca vi, ou não me recordo, de se falar sobre uma relação sexual, entre um casal, tão descritivamente condensada e intensivamente sentida, no domínio dramático e "linguístico" (no seu sentido corrente).
Portanto, sem portantos, é uma cena com simplicidade, mas que entra e fica. Como tantas outras cenas que, com ou sem especial explicação racional, perfilhamos na nossa vivência arcadiana.
Esta cena é digna, para mim, de constar aqui no N ARIANES, mas por razões que ainda não são muito seguras e reflectidas, confesso. O que é facto é que marcou-me. Não pela excepcional interpretação de ambos, pois Julia Roberts teve num nível, diria, razoável e o Clive Owen no muito bom, como é seu apanágio.
A cena marca, julgo eu, porque em "filme ao estilo hollywood" nunca vi, ou não me recordo, de se falar sobre uma relação sexual, entre um casal, tão descritivamente condensada e intensivamente sentida, no domínio dramático e "linguístico" (no seu sentido corrente).
Portanto, sem portantos, é uma cena com simplicidade, mas que entra e fica. Como tantas outras cenas que, com ou sem especial explicação racional, perfilhamos na nossa vivência arcadiana.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
N ARIANES VIII
Cena: Andy Dufresne (Tim Robbins) em "Os Condenados de Shawshank" de Frank Darabont
A música é suprema na alienação humana de espaços fechados e castradores. Para muitos, os verdadeiros apreciadores das notas de Orfeu, é um autêntico exercício de liberdade, uma profunda viagem de libertação e de reflexão.
Nesta cena do filme, a condição humana harmoniza-se com a maltratada dignidade, ainda que sem unanimidade. O acto é de pouca duração, mas quando fazemos o balanço da vida, de quantos minutos experienciados precisamos nós para serem um dos grandes momentos da nossa vida?
A música que Andy Dufresne difunde por toda a prisão é o dueto "Sull'aria? Che soave zeffiretto", pertencente à ópera "As Bodas de Fígaro" de Mozart. A performance musical é de 1968, na Ópera de Berlim, cantada por Edith Mathis e Gundula Janowitz e conduzida pelo Maestro Karl Böhm.
A música é suprema na alienação humana de espaços fechados e castradores. Para muitos, os verdadeiros apreciadores das notas de Orfeu, é um autêntico exercício de liberdade, uma profunda viagem de libertação e de reflexão.
Nesta cena do filme, a condição humana harmoniza-se com a maltratada dignidade, ainda que sem unanimidade. O acto é de pouca duração, mas quando fazemos o balanço da vida, de quantos minutos experienciados precisamos nós para serem um dos grandes momentos da nossa vida?
A música que Andy Dufresne difunde por toda a prisão é o dueto "Sull'aria? Che soave zeffiretto", pertencente à ópera "As Bodas de Fígaro" de Mozart. A performance musical é de 1968, na Ópera de Berlim, cantada por Edith Mathis e Gundula Janowitz e conduzida pelo Maestro Karl Böhm.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
N ARIANES VII
Cena: "Death Simles At Us All" - em "Gladiador" (2000), de Ridley Scott
Posso dizer, com toda a franqueza, que a interpretação deste imperador romano - pelo actor Joachin Phoenix - marca-me. E presumo que me marcará por muitos anos de vida. Assim como vejo sempre Val Kilmer quando oiço The Doors, ou o Mel Gibson, quando olho para um guerreiro de kilt, ou Willem Dafoe quando, raramente, me confronto com Jesus Cristo, assim é Phoenix a assaltar-me quando me deparo com imperadores romanos. É uma interpretação fabulosa, onde (quase) podemos ver um imperador a morder a língua com a boca fechada, atravessada por coléricos movimentos de auto-flagelação!
A nomeação para o Óscar (de melhor actor secundário) em 2001 com este filme é mais do que justa (tal como a de 2006 com o filme "Walk the Line") e se tivesse levado a estatueta seria um digno premiado.
Este filme vale para além da notável interpretação de Phoenix. Há ainda dois grandes coliseus cinematográficos neste filme:
- A voz e as poucas músicas de Lisa Gerrard no filme.
- O diálogo entre Commodus (o imperador) e Maximus (o gladiador), que é absolutamente magistral: simples, curto, denso e mágico. Notem como são poucas e profundas as palavras, e como estão orquestradas, numa eficácia atroz de interpretação e comunicação. É de repetir, e ver e ouvir com muita atenção. E reflectir, reflectir muito.
Sem dúvida, uma das minhas grandes cenas ARIANES.
Posso dizer, com toda a franqueza, que a interpretação deste imperador romano - pelo actor Joachin Phoenix - marca-me. E presumo que me marcará por muitos anos de vida. Assim como vejo sempre Val Kilmer quando oiço The Doors, ou o Mel Gibson, quando olho para um guerreiro de kilt, ou Willem Dafoe quando, raramente, me confronto com Jesus Cristo, assim é Phoenix a assaltar-me quando me deparo com imperadores romanos. É uma interpretação fabulosa, onde (quase) podemos ver um imperador a morder a língua com a boca fechada, atravessada por coléricos movimentos de auto-flagelação!
A nomeação para o Óscar (de melhor actor secundário) em 2001 com este filme é mais do que justa (tal como a de 2006 com o filme "Walk the Line") e se tivesse levado a estatueta seria um digno premiado.
Este filme vale para além da notável interpretação de Phoenix. Há ainda dois grandes coliseus cinematográficos neste filme:
- A voz e as poucas músicas de Lisa Gerrard no filme.
- O diálogo entre Commodus (o imperador) e Maximus (o gladiador), que é absolutamente magistral: simples, curto, denso e mágico. Notem como são poucas e profundas as palavras, e como estão orquestradas, numa eficácia atroz de interpretação e comunicação. É de repetir, e ver e ouvir com muita atenção. E reflectir, reflectir muito.
Sem dúvida, uma das minhas grandes cenas ARIANES.
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
N ARIANES VI
Cena: "Samuel L. Jackson e Ezekiel 25:17" - em "Pulp Fiction" (1994), de Quentin Tarantino
A cena em que cada postura, acto, palavra ou reflexo conta. Onde as linhas e as vistas e os ângulos não se anulam. A cena-mestre de um realismo sem senso de superficialidade. Esta cena, deveras, é uma das minhas grandes cenas cinematográficas preferidas que conheço. Fora de série e quase de um irreal social.
A cena em que cada postura, acto, palavra ou reflexo conta. Onde as linhas e as vistas e os ângulos não se anulam. A cena-mestre de um realismo sem senso de superficialidade. Esta cena, deveras, é uma das minhas grandes cenas cinematográficas preferidas que conheço. Fora de série e quase de um irreal social.
terça-feira, 7 de agosto de 2007
N ARIANES V
"Cena do Discurso de William Wallace antes da Batalha de Stirling" - em "Braveheart" (1995), de Mel Gibson
Mais uma vez mostro este filme (eu já tinha avisado aqui no N ARIANES) que considero um épico da cinematografia mais recente do século passado. Desta vez, destaco o simples e tocante discurso feito de um common hero para uma common people, com certeza lembrado pela posteridade e as gerações futuras, tão vital que poderá mesmo levar a humanidade a digladiar-se pela sobrevivência num futuro próximo. Veremos se serão dias de liberdade.
William Wallace: And if this is your army, why does it go?
Soldier: We didn't come here to fight for them.
Second Soldier: Home, the English are too many!
William Wallace: Sons of Scotland! I am William Wallace.
Second Soldier: William Wallace is seven feet tall!
William Wallace: Yes, I've heard. Kills men by the hundreds. And if HE were here, he'd consume the English with fireballs from his eyes, and bolts of lightning from his arse.
I AM William Wallace! And I see a whole army of my country men, here, in defiance of tyranny. You've come to fight as free men, and free men you are.
What will you do with that freedom? Will you fight?
Soldier: Against that? No, we will run, and we will live.
William Wallace: Aye, fight and you may die, run, and you'll live... at least a while. And dying in your beds, many years from now, would you be willin' to trade ALL the days, from this day to that, for one chance, just one chance, to come back here and tell our enemies that they may take our lives, but they'll never take... Our Freedom!
Mais uma vez mostro este filme (eu já tinha avisado aqui no N ARIANES) que considero um épico da cinematografia mais recente do século passado. Desta vez, destaco o simples e tocante discurso feito de um common hero para uma common people, com certeza lembrado pela posteridade e as gerações futuras, tão vital que poderá mesmo levar a humanidade a digladiar-se pela sobrevivência num futuro próximo. Veremos se serão dias de liberdade.
William Wallace: And if this is your army, why does it go?
Soldier: We didn't come here to fight for them.
Second Soldier: Home, the English are too many!
William Wallace: Sons of Scotland! I am William Wallace.
Second Soldier: William Wallace is seven feet tall!
William Wallace: Yes, I've heard. Kills men by the hundreds. And if HE were here, he'd consume the English with fireballs from his eyes, and bolts of lightning from his arse.
I AM William Wallace! And I see a whole army of my country men, here, in defiance of tyranny. You've come to fight as free men, and free men you are.
What will you do with that freedom? Will you fight?
Soldier: Against that? No, we will run, and we will live.
William Wallace: Aye, fight and you may die, run, and you'll live... at least a while. And dying in your beds, many years from now, would you be willin' to trade ALL the days, from this day to that, for one chance, just one chance, to come back here and tell our enemies that they may take our lives, but they'll never take... Our Freedom!
quinta-feira, 19 de julho de 2007
N ARIANES IV
Cena de Steiner (Alain Cuny) no filme "La Dolce Vita" (1960) - de Federico Fellini
«Qualche volta, la notte, quest'oscurità, questo silenzio, mi pesano.
E' la pace che mi fa paura. Temo la pace più di ogni altra cosa:
mi sembra che sia soltanto un'apparenza , e nasconda l'inferno.
Pensa a cosa vedranno i miei figli domani...
Il mondo sarà meraviglioso, dicono. Ma da che punto di vista, se basta uno squillo di telefono ad annunciare la fine di tutto?
Bisogna di vivere fuore dalle passione e altri sentimenti nell'armonia che c'è nell'opera d'arte reuscita, in quell'ordino incantato.
Vodremmo riuscire al amarci tanto, da vivere fuore del tempo, distacati...
distacati.»
«De quando em quando, pela noite, a escuridão e o silêncio sobrepesa-me.
E a paz, que me faz ter medo. Receio a paz mais do que outra coisa. Sinto que seja somente uma aparência, que esconda o Inferno.
Pensar que futuro resta aos meus filhos; o mundo será maravilhoso, dizem. Mas de que prespectiva, se basta uma chamada de telefone a anunciar o fim de tudo?
Necessitamos de viver para além da paixão e de outros sentimentos, qual uma obra de arte de encantamento... Queremos tanto suceder ao amar-nos tanto, de viver fora do tempo, marginalizados... marginalizados.» (trad.livre minha)
Steiner fala por todos nós neste filme lindíssimo com diálogos e monólogos fascinantes. E se alguém sente que ainda não fala, talvez seja sinal de algum medo de existir.
Se não viram o filme, não o percam. Esta passagem marcou-me bastante. E já lá vão quase 20 anos.
«Qualche volta, la notte, quest'oscurità, questo silenzio, mi pesano.
E' la pace che mi fa paura. Temo la pace più di ogni altra cosa:
mi sembra che sia soltanto un'apparenza , e nasconda l'inferno.
Pensa a cosa vedranno i miei figli domani...
Il mondo sarà meraviglioso, dicono. Ma da che punto di vista, se basta uno squillo di telefono ad annunciare la fine di tutto?
Bisogna di vivere fuore dalle passione e altri sentimenti nell'armonia che c'è nell'opera d'arte reuscita, in quell'ordino incantato.
Vodremmo riuscire al amarci tanto, da vivere fuore del tempo, distacati...
distacati.»
«De quando em quando, pela noite, a escuridão e o silêncio sobrepesa-me.
E a paz, que me faz ter medo. Receio a paz mais do que outra coisa. Sinto que seja somente uma aparência, que esconda o Inferno.
Pensar que futuro resta aos meus filhos; o mundo será maravilhoso, dizem. Mas de que prespectiva, se basta uma chamada de telefone a anunciar o fim de tudo?
Necessitamos de viver para além da paixão e de outros sentimentos, qual uma obra de arte de encantamento... Queremos tanto suceder ao amar-nos tanto, de viver fora do tempo, marginalizados... marginalizados.» (trad.livre minha)
Steiner fala por todos nós neste filme lindíssimo com diálogos e monólogos fascinantes. E se alguém sente que ainda não fala, talvez seja sinal de algum medo de existir.
Se não viram o filme, não o percam. Esta passagem marcou-me bastante. E já lá vão quase 20 anos.
sexta-feira, 13 de julho de 2007
N ARIANES III
"Cinema Paraíso" (1989) de Giuseppe Tornatore
Quem não ficou com um nó na garganta ou com os olhos lacrimejados ao ver o final deste belíssimo e tão simples filme de amor eterno?
Quem não gostava, em dada altura da vida, ter cinco minutos grandiosos oferecidos à recordação para valorizar a amizade honesta e profunda e sentida no seu interior mais cavernoso?
Quem se importava em ter esta belíssima música de Ennio Morricone como banda sonora da sua vida?
Há alguma pessoa comum (não digo críticos ou pseudo-críticos de cinema) que não tivesse visto esta cena final?
Sem dúvida, uma cena cinemotográfica que superou a atmosfera humana. Um Ariane portanto.
Quem não ficou com um nó na garganta ou com os olhos lacrimejados ao ver o final deste belíssimo e tão simples filme de amor eterno?
Quem não gostava, em dada altura da vida, ter cinco minutos grandiosos oferecidos à recordação para valorizar a amizade honesta e profunda e sentida no seu interior mais cavernoso?
Quem se importava em ter esta belíssima música de Ennio Morricone como banda sonora da sua vida?
Há alguma pessoa comum (não digo críticos ou pseudo-críticos de cinema) que não tivesse visto esta cena final?
Sem dúvida, uma cena cinemotográfica que superou a atmosfera humana. Um Ariane portanto.
segunda-feira, 18 de junho de 2007
N ARIANES II
"Braveheart" 1995
A primeira parte deste videotube é, para mim, uma das cenas mais fortes e memoráveis jamais produzida no cinema. É uma cena cheia de cenas, que, por muitas vezes que a veja, e não são poucas no cômputo geral, não deixa de me comover e de reflectir sobre o mais digno sentido da vida. Julgo mesmo não haver cena igual a esta em outros filmes, se é que isso é possível. E refiro-me à igualdade na força, dimensão e conteúdo da mensagem que sublinha e transmite, na arte que representa, na emoção que desperta. Tudo junto, é um quadro completo de grande beleza e profunda admiração.
Notem bem no culminar daquele suplício voluntarioso, naquele grito cavernoso, que só parece ter uma razão possível (o amor a uma causa) e um sentido improvável (a sua libertação para além do presente e da memória).
É uma cena, e um filme, com a música e a letra da força e da coragem, com as vozes inimigas e amigas a suplicarem misericórdia; uma cena a puxar por uma palavra de perdão e gritada por outra, epílogada de Liberdade. Não há cena e final como estes, há esmeradas tentativas, e apenas isso.
E como todas as obras humanas, a história de Wallace está cheia de paradoxos e contradições. Gosto especialmente de uma, para não vos maçar, que a traduzo através de uma interrogação: como pode a morte de uma pessoa, cujo corpo foi desmembrado, decapitado, despedaçado, com os genitais arrancados, distribuídos pela terra do inimigo, e o coração queimado numa fogueira em 1305 (no filme é mais tarde) ser a primeira e última razão de união de um povo ainda no século XXI?
Assim, é possível universalmente dizer, mas não será absolutamente para todos, morrer como Wallace é provavelmente viver para sempre.
Todavia, é apenas uma cena, de um filme... que não morrerá antes do seu cinema.
A primeira parte deste videotube é, para mim, uma das cenas mais fortes e memoráveis jamais produzida no cinema. É uma cena cheia de cenas, que, por muitas vezes que a veja, e não são poucas no cômputo geral, não deixa de me comover e de reflectir sobre o mais digno sentido da vida. Julgo mesmo não haver cena igual a esta em outros filmes, se é que isso é possível. E refiro-me à igualdade na força, dimensão e conteúdo da mensagem que sublinha e transmite, na arte que representa, na emoção que desperta. Tudo junto, é um quadro completo de grande beleza e profunda admiração.
Notem bem no culminar daquele suplício voluntarioso, naquele grito cavernoso, que só parece ter uma razão possível (o amor a uma causa) e um sentido improvável (a sua libertação para além do presente e da memória).
É uma cena, e um filme, com a música e a letra da força e da coragem, com as vozes inimigas e amigas a suplicarem misericórdia; uma cena a puxar por uma palavra de perdão e gritada por outra, epílogada de Liberdade. Não há cena e final como estes, há esmeradas tentativas, e apenas isso.
E como todas as obras humanas, a história de Wallace está cheia de paradoxos e contradições. Gosto especialmente de uma, para não vos maçar, que a traduzo através de uma interrogação: como pode a morte de uma pessoa, cujo corpo foi desmembrado, decapitado, despedaçado, com os genitais arrancados, distribuídos pela terra do inimigo, e o coração queimado numa fogueira em 1305 (no filme é mais tarde) ser a primeira e última razão de união de um povo ainda no século XXI?
Assim, é possível universalmente dizer, mas não será absolutamente para todos, morrer como Wallace é provavelmente viver para sempre.
Todavia, é apenas uma cena, de um filme... que não morrerá antes do seu cinema.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
N ARIANES I*
Do filme "The Island" (A Ilha)
Imaginem um mundo fechado, como aquele onde vivem, construído com o suor e a inteligência das gerações anteriores, como aquele que conhecem, habitado por pessoas diferentes de vós, como aquelas que tentam evitar ou desprezam, serviçais do deus tempo segundo a escritura da rotina disciplinada, como são testemunhas do vosso mundo contemporâneo, típica das redomas psicológicas do espaço conhecido, como aquelas onde vós sois perecíveis praticantes, e de repente, continuem a imaginar, tudo se transforma e nada se cristaliza: o mundo abre-se, não se vêem casas com alma, os corpos desabitam as estruturas frias criadas por mãos humanas, e a caixa, essa obra-maravilha da humanidade, essa âncora de todos os corpos globalizados, esse tecto do mundo continuamente escalado, descobre-se que é uma caixa feita de nada... simplesmente, nada. Nada, integralmente nada. Esteve sempre ali, sempre possível e existente, sempre acessível e disponível, transparente como água desanuviada de bênçãos e preconceitos. E é surpreendentemente nada. Revelou-se a sua fantástica e nula existência. Não havia, nesse mundo imaginado, qualquer caixa limitada da liberdade. Havia liberdade, espante-se, para além dela!
Imaginem, afinal, ser possível viver num mundo assim, onde exista verdadeiramente liberdade, ou seja, aquele em que a liberdade é praticada por todos sem violar a de nenhum ser humano. É difícil de imaginar ou é mais cómodo acreditarmos que somos mais felizes assim-assim, ou seja, como se não houvesse nada mais para imaginar, de todo?
*Mais uma nova rubrica, desta vez sobre cinema. A selecção terá duas limitações naturais: o facto de a escolha ser minha e a disponibilidade nos sítios da Internet. Embora pensada há muito, julgo que só agora há condições suficientes para criar esta rubrica, pois não havia muitas oportunidades de publicar cenas preferidas num blogue, dada a sua escassez na digitalosfera. E no que toca à primeira limitação que referi, como calculam, estou bem longe de ser um crítico ou um viciado em cinema. Vejo cinema como o comum dos mortais portugueses, talvez a única nota acima da média seja a de possuir pouco mais de 800 filmes (em VHS e DVD). Todavia, repito, o que colocarei nesta rubrica é uma selação pessoal, porventura algo intimista, daí que não tenha necessariamente a ver com a qualidade do filme ou da cena, bem pelo contrário. Mais importante do que a qualificação, como em qualquer gosto de qualquer arte, é a mensagem, o substantivo, o sentido que a obra, ou o pedaço da obra, representa ou significa para mim.
Quanto à razão do título da rubrica, acho que vão ter que descobrir por vós próprios.
Imaginem um mundo fechado, como aquele onde vivem, construído com o suor e a inteligência das gerações anteriores, como aquele que conhecem, habitado por pessoas diferentes de vós, como aquelas que tentam evitar ou desprezam, serviçais do deus tempo segundo a escritura da rotina disciplinada, como são testemunhas do vosso mundo contemporâneo, típica das redomas psicológicas do espaço conhecido, como aquelas onde vós sois perecíveis praticantes, e de repente, continuem a imaginar, tudo se transforma e nada se cristaliza: o mundo abre-se, não se vêem casas com alma, os corpos desabitam as estruturas frias criadas por mãos humanas, e a caixa, essa obra-maravilha da humanidade, essa âncora de todos os corpos globalizados, esse tecto do mundo continuamente escalado, descobre-se que é uma caixa feita de nada... simplesmente, nada. Nada, integralmente nada. Esteve sempre ali, sempre possível e existente, sempre acessível e disponível, transparente como água desanuviada de bênçãos e preconceitos. E é surpreendentemente nada. Revelou-se a sua fantástica e nula existência. Não havia, nesse mundo imaginado, qualquer caixa limitada da liberdade. Havia liberdade, espante-se, para além dela!
Imaginem, afinal, ser possível viver num mundo assim, onde exista verdadeiramente liberdade, ou seja, aquele em que a liberdade é praticada por todos sem violar a de nenhum ser humano. É difícil de imaginar ou é mais cómodo acreditarmos que somos mais felizes assim-assim, ou seja, como se não houvesse nada mais para imaginar, de todo?
*Mais uma nova rubrica, desta vez sobre cinema. A selecção terá duas limitações naturais: o facto de a escolha ser minha e a disponibilidade nos sítios da Internet. Embora pensada há muito, julgo que só agora há condições suficientes para criar esta rubrica, pois não havia muitas oportunidades de publicar cenas preferidas num blogue, dada a sua escassez na digitalosfera. E no que toca à primeira limitação que referi, como calculam, estou bem longe de ser um crítico ou um viciado em cinema. Vejo cinema como o comum dos mortais portugueses, talvez a única nota acima da média seja a de possuir pouco mais de 800 filmes (em VHS e DVD). Todavia, repito, o que colocarei nesta rubrica é uma selação pessoal, porventura algo intimista, daí que não tenha necessariamente a ver com a qualidade do filme ou da cena, bem pelo contrário. Mais importante do que a qualificação, como em qualquer gosto de qualquer arte, é a mensagem, o substantivo, o sentido que a obra, ou o pedaço da obra, representa ou significa para mim.
Quanto à razão do título da rubrica, acho que vão ter que descobrir por vós próprios.
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