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domingo, 14 de março de 2010

paleta de palavras lxxxvi



O em um

«O amor amado é um peso-pesado,
um presente inconstantemente ausente,
momentâneo, trajado, como a felicidade inconsciente,
duplamente fugaz, rochado em rostos e toques passados,
sobejado em fugas e tactos actualizados,
rodeado de olhares constâncios, quedivos,
condenados ao futuro, sem paz, repetidos,
cheios de memória e esperança num final regressado,
sem fim, o fim, último, que com sombra do passado,
termina na companhia do outro, consorte do mundo,
e na réstia da festa do corpo separado... ou moribundo.»

Miguel Pessoa Campomaior, in "Poesias Urbanas".

quarta-feira, 24 de junho de 2009

paleta de palavras lxxiv



Para quem o viu, recordará com certeza o filme "Slumdog Millionaire".

domingo, 24 de maio de 2009

paleta de palavras LXXIII



Julgo que é a segunda vez que coloco esta música no blogue. Também não será a última, asseguro-vos. Pode ser a última terceira, a última quarta, enfim, o que a saúde e o o mau temperamento permitir, e o mundo exigir... mas não será a última segunda vez. Desta vez foi o mundo, essa massa anónima de teias humanas, seres vivos metafóricos em período de transformação para um mundo aracnídeo. Cada vez mais tecidas e fatais, as redes vão rastreando e apagando as pegadas, de tudo o que passa ou quer passear. Os primeiros hoje, os últimos de outrora. Em devir enrodilhado, todos querem ser primeiros, estar em primeiros, parecer primeiros, com o físico em 1 e a fazer "play" em todos os neo-objectos da pós-modernidade. Não há volta por onde se pode pegar nesta rede enredada na sua própria teia. Estamos todos enrolados nela e, sem se saber, continuamos alegremente a tecê-la, para gáudio público e pessoal das palavras narcisistas da nova bíblia contemporânea - a Internet. E que maravilhosa ferramenta! Embebeda-nos de auto-recriação e de talento, e convencimento de que estamos mais protegidos e seguros e somos únicos e diferentes. E que alguém nos oiça. E é a verdade, já não nos ouvimos apenas a nós próprios. Há sempre mais alguém que sabe das nossas palavras, com prejuízo natural do seu sentido, mas isso pouco importa. O sentido pouco ou nada revela o que o outro quer comunicar, as suas palavras, e assim viciosamente, o círculo se compõe, a teia se vislumbra e a rede se completa. Até que, quando o tempo e a vontade se encontram com a acção, a teia estica, vibra e revira-se, numa tremulada estonteante, ao som de momentos sonoros, iluminados, que duram apenas 6 minutos, mas não nos deixa repetir o mesmo acto duas vezes. Não há vezes iguais. Da primeira à última.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

PALETA DE PALAVRAS LXXI

«Se os homens fossem anjos, não seria necessário qualquer governo. Se os anjos governassem os homens, não seriam necessários controlos externos nem internos sobre o governo.»
James Madison, The Federalist Papers

É madisoniano ou rousseauniano?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

PALETA DE PALAVRAS LXX

"Esse controlo [do financiamento dos partidos] e essa transparência terão um impacto positivo na qualidade da nossa democracia, afastarão suspeitas indesejadas, promoverão a discussão política e contribuirão para a separação do trigo do joio.

Hoje, como ontem, a questão central do financiamento da actividade dos partidos e dos políticos é a de saber se o sistema político controla o dinheiro ou se é o dinheiro que controla o sistema político."

António José Seguro, Expresso, 1 de Março de 2008

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

PALETA DE PALAVRAS LXIX

«O mundo inteiro a fugir,
O mundo inteiro a pedir.
Que se oiça alto o teu Não.»

"A Cada Não Que Dizes", Pedro Abrunhosa, no álbum Luz (2007)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

PALETA DE PALAVRAS LXVIII

"A propósito do livro O Poder: Uma Nova Análise Social, de Bertrand Russell, George Orwell comenta: "descemos a um ponto tal que a reafirmação do óbvio é o primeiro dever dos homens inteligentes" (1939, p. 107). Que sem um ensino de qualidade não é possível existir investigação de qualidade é uma dessas verdades óbvias que infelizmente é hoje preciso defender, explicar e reafirmar. O desprezo pela excelência do ensino é grave nas universidades que lideram a investigação a nível mundial (Stuntz, 2006), mas é caricato nas universidades que em nada contribuem efectivamente para o avanço do conhecimento da humanidade."

Desidério Murcho
http://criticanarede.com/

domingo, 17 de fevereiro de 2008

PALETA DE PALAVRAS LXVII

La Vanguardia
11-02-2008

"Cheguei a um ponto em que era mais feliz louco que são",
John Forbes Nash, prémio Nobel de Economia,
cientista esquizofrénico e que inspirou o filme "Uma Mente Brilhante"

«"É um génio": foram as três palavras com que o recomendaram a
Princeton. Sua irmã, ao saber, acrescentou: "É muito estranho". Aos 21
anos, enunciou a tese de equilíbrio que desbancou Adam Smith e fundou
a economia moderna. Participou como cientista militar até o delírio
-literal- na Guerra Fria que sua esquizofrenia paranóica simboliza à
perfeição: acabou acreditando ser perseguido por conspiradores
comunistas. Internado depois de uma crise psicótica, passou 30 anos
alheio, vagando pelo campus de Princeton, onde o apelidaram de o
fantasma. Conseguiu recuperar a sanidade de forma milagrosa e
suficiente para receber o prêmio Nobel em 1994.


Tenho 79 anos. Nasci na Virgínia Ocidental. Tenho dois filhos: estive
casado, deixei de estar e agora volto a estar. As estatísticas
demonstram que é melhor estar casado. Seria penoso explicar toda a
minha evolução religiosa. Votar é fácil e pouco. Colaboro com a
Universidade Pompeu Fabra (Barcelona). A entrevista:

La Vanguardia (LV) - Por que lhe deram o prêmio Nobel de Economia?
John Forbes Nash - Descobri uma forma de equilíbrio -hoje chamado de
Nash- na teoria dos jogos: um ponto em que nenhum dos jogadores pode
melhorar sua situação. Hoje esse conceito é aplicado de forma
interdisciplinar.

LV - Fez essa descoberta apesar de sua enfermidade mental?
Nash - Tenho um histórico, sim, de distúrbio mental temporário que se
manifestava de diversas formas. Hoje temos medicamentos que na época
não existiam, que tratam os sintomas e permitem continuar com o que se
considera uma vida normal, mas têm efeitos indesejáveis.

LV - Quais?
Nash - Para restituir sua normalidade, reduzem sua atividade
neurológica e suas funções cognitivas. O devolvem à normalidade, sim,
mas às custas de sua capacidade pessoal de raciocínio.

LV - E hoje o senhor o exerce integralmente?
Nash - Eu posso trabalhar, mas meu filho, que também sofre esse
distúrbio, toma esse medicamento que não lhe permite se dedicar a nada
concretamente; mas pode observar um comportamento normal.

LV - Como se manifestou esse transtorno?
Nash - Tive de ser internado em um hospital depois de vários episódios
de disfunção social, e afinal melhorei, mas não pude evitar um poço de
infelicidade em meu ânimo e em minha conduta.

LV - A que se refere?
Nash - Era infeliz ao me recuperar, porque a normalidade não me
deixava feliz. A loucura começa quando você descobre uma segunda
realidade em sua mente e às vezes a prefere, porque o faz mais feliz
que a normalidade. Assim, cheguei a um ponto em que eu era mais feliz
louco do que são.

LV - Mas era capaz de distinguir entre a realidade e sua ilusão?
Nash - Chega um momento em que fica difícil distingui-las e você vai
escolhendo cada vez mais a ilusória. Assim se transforma em
disfuncional.

LV - Disfuncional em que sentido?
Nash - É natural que um ser humano deva atuar com o resto do grupo:
trabalhar, observar as normas, comportar-se como todos...

LV - Há exceções.
Nash - Correto. Suponhamos que eu não trabalhe nem seja rico e diga
que ouço vozes, tenho visões e as desenho ou escrevo: o que você
pensaria?

LV - Talvez sugira que poderiam interná-lo.
Nash - Suponhamos que eu lhe diga que sou um monge enclausurado. Você
aceitaria que uma freira ou um monge em seu convento pode não
trabalhar, ter visões e explicá-las, no entanto esse monge não será
considerado anormal por isso.

LV - Certamente.
Nash - A sociedade os aceita porque, fora eles, há muitos e
suficientes outros homens e mulheres que se comportam de forma normal.

LV - A maioria tem senso comum.
Nash - Falso. O senso comum não é majoritário: por exemplo, na
Espanha e no Ocidente o cristianismo é a religião majoritária...

LV - Continua sendo, sim.
Nash - ... mas o cristianismo exige de seus fiéis fé cega em dogmas
que em caso algum poderiam ser considerados senso comum.

LV - A trindade ou a virgindade de Maria.
Nash - Hoje eu vi a obra de Gaudí: magnífica.

LV - Sem dúvida.
Nash - Apesar de não conhecer sua vida, tenho certeza de que foi
considerado um anormal, um louco.

LV - Creio lembrar-me que sim.
Nash - Van Gogh também tinha problemas para discernir a realidade de
suas visões. O que me pergunto é se a medicação que temos hoje teria
sido capaz de devolver a normalidade a Van Gogh sem privá-lo de seu
talento.

LV - ...
Nash - No entanto, o progresso teria sido difícil sem as visões de Van
Gogh ou o autismo de Newton. Newton também foi considerado um tipo
suspeito: não se casou, era estranho...

(continua aqui)
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

domingo, 3 de fevereiro de 2008

PALETA DE PALAVRAS LXVI

"No Banquete de Platão, a profetisa Diotima de Mantineia ressaltou para Sócrates, com a sincera aprovação deste, que ´o amor não se dirige ao belo, como pensa; dirige-se à geração e ao nascimento no belo´. Amar é querer ´gerar e procriar´, e assim o amante ´busca e se ocupa em encontrar a coisa bela na qual possa ´gerar´. Em outras palavras, não é ansiando por coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é congénere da transcendência; não é senão outro nome para o impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo.
Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro. É isso que faz o amor parecer um capricho do destino – aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido. Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde ao regozijo num amálgama irreversível."

"Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos", Zygmunt Bauman

(via Agenda Cultural Lisboa)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

PALETA DE PALAVRAS LXV

E por esto, Senhor, a mym parece que dos livros que vi de philosophia, este avantejadamente enssyna a cobrar o que os outros fazem amar e desejar. E quem bem o estudar e husar de sua enssynança, entendo que sera fora da pena e doesto que disse. E deste volume os primeiros dous livros, segundo me parecem que teem avantagem do terceiro, e aquelles achei mais claros. O terceiro achey muito scuro, por que reconta estorias e exemplos, e parece que screvia a quem as sabia. E algũas vezes poem pallavra por sentença, e per hũa pequena sentença dá a entender hũa grande estoria. E porem, Senhor, ainda que todo o livro seja mal tornado, este derradeiro entendo que he peor, em tanto que em algũus logares, ainda que nom forom muitos, eu acerca screvia a aventuira, nom entendendo o que o livro dezia. Mas por as razõoes que primeiro disse, ante o quis assy acabar que o leixar remendado com spaços que nom fossem tornados, ou por aquela scureza o leixar dacabar. Por agora fiz como entendi, e se prouver della a vossa mercee, esto ey por grande soldada daqueste trabalho.

"Dedicatoria a D. Duarte", Livro dos Ofícios de Marco Tullio Ciceram, o qual tornou em linguagem o Infante D. Pedro, Duque de Coimbra. Edição crítica, segundo o ms. de Madrid, prefaciada, anotada e acompanhada de glossário, por Joseph M. Piel. Acta Universitatis Conimbrigensis, por ordem da Universidade, 1948, p. 4
(via Super Flumina)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

PALETA DE PALAVRAS LXIV

"Fundamentalmente, a felicidade consiste na entrega activa a projectos com valor objectivo."

(Desidério Murcho)

sexta-feira, 29 de junho de 2007

PALETA DE PALAVRAS LXII

"I don't really think, I just walk."
Paris Hilton

Verdade ou consequência?

sexta-feira, 8 de junho de 2007

PALETA DE PALAVRAS LXI

«To be someone
To be someone

I wish I could say the same of myself
That I'm in perfect harmony
That I do not use the sword of my tongue
To lash out at the enemy

That I do not fear the light
That I do not stray from love as my guide
That I'm at peace inside

And all the pieces are fine
They dance and sing in unity
A dum dum dum dee daa da dee

Oh I wish I could fly
Through the sky
And the moon above me
Oh I wish I could talk
To the gods and the birds above me
It’s not fun to be so blind
To be so blind

I wish I could stay in the present day
Not lapsing into vicious sleep
‘Cause it gives my bones a brand shiny new home
One that does not confine me

And I do not fear the light
And I do not stray from love as my guide
And I'm at peace inside

And all the pieces are fine
They dance and sing in unity
A dum dum dum dee daa da dee

Oh I wish I could fly
Through the sky
And the moon above me
Oh I wish I could talk
To the gods and the birds above me
It’s not fun to be so blind
To be so blind

Slo fuzz in the morning
Where I can tempt you
To be my air
But it's not enough to be lovely
When I feel other things
I can not share
That I can't

Oh I wish I could fly
Through the sky
And the moon above me
Oh I wish I could talk
To the gods and the birds above me
It’s not fun to be so blind
To be so blind»

"Slo Fuzz" de Sol Seppy

quinta-feira, 26 de abril de 2007

PALETA DE PALAVRAS LX

Quem me dera ser católico!

«Antes também já referi, arriscando a minha reputação e talvez pecando por frivolidade, que este é um país frequentemente hipócrita. Levamos quase um mês a discutir o título académico de Sócrates e as eventuais irregularidades que rodeiam a sua licenciatura, despendendo bastante mais energia do que a necessária. Portugal é um país católico. Os políticos mentem mais do que falam - como se comenta em Espanha. Mas a nossa religião já resolveu este dilema. Primeiro mente-se, depois confessamo-nos fazendo actos de contrição, e o padre absolve-nos dos nossos pecados livrando-nos da penitência; se formos perseverantes comungamos, e depois voltamos a mentir porque a natureza humana não tem remédio, gozando a política de uma insanidade muito maior. Com tudo isto pretendo dizer que em Portugal, à semelhança do que acontece em Espanha, a mentira é um pecado venial e perfeitamente corrigível - uma situação completamente diferente da que se vive no mundo anglo-saxónico.»

Miguel Angel Belloso, in Diário Económico, aqui.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

PALETA DE PALAVRAS LIX

«Nunca o Estado em Portugal se apropriou de uma proporção tão grande do rendimento dos indivíduos e das famílias. Desde acender um cigarro até comprar uma empresa, tudo depende do Estado. O fisco é hoje uma inquisição de malha fina, com os seus autos-de-fé electrónicos. Certamente que não foi assim que Estaline imaginou o socialismo. Mas à falta de melhor, talvez se conformasse com esta versão.»

Rui Ramos, Público, Hoje.

segunda-feira, 5 de março de 2007

PALETA DE PALAVRAS LVIII

"TRANSEUNTE (_embuçado, observando, descendo a Bocage, que está de novo parado á esquina, e batendo-lhe no hombro_)

Elmano, a lyra divina
Por que razão emmudece?

BOCAGE (_voltando attonito, mas acudindo logo_)
Porque mais cala no mundo
Quem mais o mundo conhece!

TRANSEUNTE
Que tens n'esse mundo achado
Que mais assombro te faça?

BOCAGE
Um poeta com ventura,
Um tratante com desgraça.

TRANSEUNTE
Bem respondido, sr. Bocage.

BOCAGE
Bem perguntado, sr. Tolentino."

Excerto da obra Os Primeiros Amores de Bocage : Comedia em Cinco Actos de José da Silva Mendes Leal, disponível no sítio do Projecto Gutenberg

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

PALETA DE PALAVRAS LVII

«La victoria del sí está llena de significados políticos. El debate ha movilizado por primera vez a amplios grupos ciudadanos y ha sido ejemplarmente democrático y civilizado. La voz del Portugal laico y moderno se ha elevado sobre el silencio del país atrasado. Aunque el no sigue triunfando en casi todos los tradicionales feudos rurales del norte y en las islas, los dos grandes núcleos urbanos, Lisboa y Oporto (donde ganó el no en el 98), apoyan sin ambages la reforma, con un 71% afirmativo en la capital y una participación próxima al 50% en ambas. En el cinturón de Setúbal, el Alentejo y el más avanzado Algarve, el sí alcanza mayorías escandalosas.»

"El Pais", hoje e aqui.