terça-feira, 17 de maio de 2005

ESPUMAS VI



O tempo não tem sido amigo, não faz companhia, nem me acompanha como um cão fiel, com venta solta sempre pronto para um afagar. O tempo tem sido, para mim, um felino, como garras forçadas na pele, como camisa que cede ao rasgar. O tempo tem sido tudo menos tempo. Tem sido horas, minutos, segundos, mas tempo nem contá-lo. Nem o tempo tem me visto, será que ele anda sabe de mim? Sei que o tempo não tem sido tempo para mim. Se se foi embora, gostava que ele voltasse para mim, não como um cão amestrado, porque de mestrados já basta o meu, gostava que ele regressasse como tempo, certinho e devagarinho, e assim haveria tempo para estar com ele. O tempo é previsível, não há sorte alguma ter tempo. Ele não se faz de dados ou de cordas ou de forças. O tempo veste-se pela vontade. O maior inimigo do tempo é, assim, a racionalidade. Conformar o seu conteúdo com o corpo da nossa vontade é a dádiva de todos os tempos. Não ando a vestir o tempo, porque não ando a conseguir perder a razão, essa canina da modernidade. Por isso ando a perder tempo, em vez de o gastar.

NCR

1 comentário:

Anónimo disse...

O Homem não é um ser livre por natureza apesar de o aclamar, pois o tempo é a sua maior condição...está sempre sujeito ás 24h, inevitavelmente!!!...Pq é q n 32h? Ou 40h?