segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Campo Contra Campo (CLXVIII)

Amor, *****

Senhores e senhoras, meninos e meninas…, sejam bem-vindos à loja dos horrores do Sr. Haneke.

Sim, sou suspeito e cúmplice ao mesmo tempo. Suspeito porque fã do cinema do austríaco desde “Funny Games”, ainda no século passado – o original, aquele filmado com meia dúzia de tostões nas margens do Salzkammergut. Cúmplice porque…, todos somos cúmplices no cinema de Haneke. Já lá vamos…

Aqui a questão é a seguinte: se sabemos à partida que seremos torturados no escuro ao entrar numa sala para ver um filme de Michael Haneke, por que raio nos voluntariamos para tais trabalhos? A resposta é muito simples: porque Haneke é um mestre e a sua obra é brilhante.

Em Amor não é diferente. Uma porta rebenta na nossa cara, estamos dentro de um apartamento. Cheira a morte, sabemo-lo porque sentimo-lo desde a primeira frame. Mas o que raio fazemos nós ali, dentro daquele apartamento. Assim começa Amor. Em Haneke não há rodriguinhos, há cinema!

Assim começa e assim se desenrola. Se bem me recordo há um único plano fora daquele apartamento, no teatro. E mesmo nesse plano estamos cara a cara, vigilantes, com os protagonistas. Provamos daquelas refeições e estamos ali, sempre sentados à beira da cama leito de morte. Cúmplices, sempre cúmplices. Basta! 

O cinema de Haneke é assim. É difícil, incomoda. Faz-nos olhar para o lado à procura de um rosto amigo, uma saída de emergência. Como sempre há quem não suporte e saia. É a arte, estúpido. 

Em Amor assistimos impávidos mas nada serenos a uma desigual batalha daquele com a morte. Dizem que o amor destrói barreiras e vence tudo. Mas esta é uma batalha que sabemos à partida desigual.

Sim, obra prima!

2 comentários:

Patxi disse...

Adorei o filme.

E gostei muito da tua crítica aqui.
É que é mesmo isso, é o Amor contra a Morte, numa luta desigual .

E tudo o que é difícil, incomoda. Na minha sala de cinema não saiu ninguém, mas a vantagem de ir a uma sala de cinema do el corte inglés pelas 14h é que, tudo quem está ali sabe para o que vai.

Excelente crítica. Gostei muito da tua sinceridade, é mesmo amor. :)

Pedro Soares Lourenço disse...

[..., agora coro eu ;)], É um filme magnifico, do melhor que terá passado este ano pelas salas portuguesas. Depois de vencer Cannes está nomeado para os Globos..., fico curiosos para saber o que Academia vai dizer do assunto... - bem podemos desvaloriza-la mas Oscars continuam a ser Oscars. Na minha sessão, uma ou duas pessoas não suportaram a brutalidade lúcida do realizador..., é compreensível...