Oiço falar de crise desde que lembro que existo. Vou citar alguns exemplos apenas de memória, sem querer ser exaustivo. Recordo-me vagamente dos tempos do designado PREC - período revolucionário em curso -, depois recordo-me da crise do petróleo de finais dos anos 70, da crise financeira portuguesa dos anos 80, da crise da PGA - prova geral de acesso ao ensino superior -, da crise do bloco socialista-soviético culminada em 1989, terminando com a «guerra [nuclearmente] fria» do mundo bipolar, da crise asiática de 1997, da crise da bolha tecnológica dos anos 90, da crise da História com o seu apocalipse fukuyamico, da Guerra huntingtoniana das Civilizações, incluindo a sua versão «cartoonista» do século XXI, da crise de segurança de 2001, da crise partido-governamental de 2004, da crise financeira de 2008, da crise económica de 2009, para não falar de todas as crises que me acompanham desde a infância: a crise do Estado-Providência, a crise da representação política, a crise dos partidos, a crise da política, Acresce a crise de valores, da família, das empresas, da sociedade, etc, etc. Mesmo para além do passado e presente, ainda diz a futurologia bem-pensante que uma crise social espera por nós no curto-prazo. Tudo está em crise! Mas sempre?!
Parece que a conclusão a retirar desta troika sucessiva de décadas é uma de duas: ou vim a um mundo mais do que miserável e regular da História da humanidade, e não se trata de má hora ou de azar ter nascido neste período, porquanto o mundo não é mais do que isto mesmo: "crises"; ou surgi num momento da história da humanidade tão infeliz e anormal que, fomentado pela massificação da análise e do comentário comunicacional, de tal ordem gerou, e gera, uma espécie de psicose paranóico-compulsiva crisológica de largo espectro biológico, que a civilização humana não sabe exprimir-se e dialogar, ou reflectir, de forma adequada, sem apelidar a ordem dos acontecimento com a palavra "crise". Como que só soubesse exprimir a sua compreensão do mundo moderno transformando o substantivo crise num conclusivo adjectivo inerente à comunicação dos actores da sociedade moderna actual.
Não pretendo menosprezar o difícil período que se atravessa, nem tampouco afastar o conceito de crise do período actual. A minha posição é mais interrogativa que analítica. Daí que o que eu gostava mesmo de saber, sobre os meus conhecimentos razoavelmente mínimos de História universal, era se as outras gerações também sentiram esta eventual paranóia de que tudo está prestes a desmoranar-se à sua volta, ou a transformar-se ou em revolução, e se sentiram que, numa vida, ninguém escapa ao sobe e desce da escala material-social, qual rochedo de Sísifo.
Assim sendo, se a aplicação do conceito de "crise" caracteriza a normalidade da rotina humana, porque constitui a regra das nosas vidas e não a excepção, então reinvente-se o conceito de crise e façamos da crise o momento alto da nossa vida. Caso contrário, arriscamo-nos a não saber viver doutro modo, com outra postura de diálogo, outro comportamento social, ou mesmo noutra realidade, seja qual for a sua verdade.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Leitura recomendada
Obama pop star
Escuta twitter; mensagem interceptada entre este e este senhor. Ou vice-versa, já não me lembro bem. Não vejam, não...
O que faz falta é agitar a malta
Sofia Vieira (link): Está demasiado bem-educada, a blogoesfera, muito certinha e mainstream; respeita-se sempre a opinião dos outros, por mais cretina que seja; replica-se, treplica-se e dissecam-se imbecilidades. Há até quem ouse criar regras de etiqueta e normas de comportamento, e que pretenda a criação de entidades que cuidem da sua aplicação. Que se fodam.
Um exemplo de Paixão e Humildade
[Como não consigo "embutir" aqui o video fica apenas o link - não percam]
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Campo Contra Campo (CXXIII)
Vicky Cristina Barcelona (***)
...recomecemos então por um filme que muito tem dado que falar.
Paradoxalmente não há muito a dizer sobre a fantasia (erótica) espanhola de Woody Allen. A "ciência" do nova-iorquino está toda lá, mas parece ter sido afectada pela indolência do verão mediterrânico e pela própria luxúria do sonho. Os paradoxos começam logo no próprio título do filme. Vicky está lá, Cristina também, mas da Barcelona pouco se sabe. A cidade condal fica muito longe de se assumir enquanto personagem; quando muito teremos a afirmação (discutível!) de um certo viver catalão: da arte, do comer, do beber, do estio, do prazer, numa palavra, do sentir que estamos vivos. No demais, Match Point há só um. Registo, contudo, por essa blogosfera fora, que o filme tem agitado algumas consciências, fazendo despertar, fazendo sonhar. É estranho que tenha de vir um "velho babão" do outro lado do atlântico mostrar-nos o que pode ser a vida bem vivida. Que, pelo menos, não se fiquem pelo desejo, pelo sonho. Vá, vivam…
[Ao invés de Scarlett Johansson, que tarda em impor a sua beleza impar como actriz, nota altíssima para Rebecca Hall, totalmente comprometida com a personagem; sigamo-la com atenção]
...recomecemos então por um filme que muito tem dado que falar.Paradoxalmente não há muito a dizer sobre a fantasia (erótica) espanhola de Woody Allen. A "ciência" do nova-iorquino está toda lá, mas parece ter sido afectada pela indolência do verão mediterrânico e pela própria luxúria do sonho. Os paradoxos começam logo no próprio título do filme. Vicky está lá, Cristina também, mas da Barcelona pouco se sabe. A cidade condal fica muito longe de se assumir enquanto personagem; quando muito teremos a afirmação (discutível!) de um certo viver catalão: da arte, do comer, do beber, do estio, do prazer, numa palavra, do sentir que estamos vivos. No demais, Match Point há só um. Registo, contudo, por essa blogosfera fora, que o filme tem agitado algumas consciências, fazendo despertar, fazendo sonhar. É estranho que tenha de vir um "velho babão" do outro lado do atlântico mostrar-nos o que pode ser a vida bem vivida. Que, pelo menos, não se fiquem pelo desejo, pelo sonho. Vá, vivam…
[Ao invés de Scarlett Johansson, que tarda em impor a sua beleza impar como actriz, nota altíssima para Rebecca Hall, totalmente comprometida com a personagem; sigamo-la com atenção]
Rain, rain, rain por David Fonseca
...sim esse(link). PALETA DE PALAVRAS LXX
"Esse controlo [do financiamento dos partidos] e essa transparência terão um impacto positivo na qualidade da nossa democracia, afastarão suspeitas indesejadas, promoverão a discussão política e contribuirão para a separação do trigo do joio.
Hoje, como ontem, a questão central do financiamento da actividade dos partidos e dos políticos é a de saber se o sistema político controla o dinheiro ou se é o dinheiro que controla o sistema político."
António José Seguro, Expresso, 1 de Março de 2008
Hoje, como ontem, a questão central do financiamento da actividade dos partidos e dos políticos é a de saber se o sistema político controla o dinheiro ou se é o dinheiro que controla o sistema político."
António José Seguro, Expresso, 1 de Março de 2008
Tem mais que fazer?
Então este post não é para si.
Este post é para quem – como se diz lá na minha terra – tem vagar. Se está cheio de trabalho ou tem de ir mudar a fralda à criança, esqueça. Isto é para “meninos(as) do rio” que gostam de se divertir e têm uma boa e rápida ligação à Rede.
Ou de como o “descubra as diferenças” revisto e ampliado para a era digital pode ser FA-BU-LO-SO!
[obrigado Cláudia (link)]
Este post é para quem – como se diz lá na minha terra – tem vagar. Se está cheio de trabalho ou tem de ir mudar a fralda à criança, esqueça. Isto é para “meninos(as) do rio” que gostam de se divertir e têm uma boa e rápida ligação à Rede.
Ou de como o “descubra as diferenças” revisto e ampliado para a era digital pode ser FA-BU-LO-SO!
[obrigado Cláudia (link)]
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Onde é a saida de emergência?
Extrema-esquerda com mais de vinte e cinco por cento das intenções de voto (link).
Campo Contra Campo (CXXII)
É um facto: perdi o habito de escrever sobre cinema.
Não pode ser, há que combater a inércia. Por variadas razões, mas, essencialmente, porque o "Campo Contra Campo" ao obrigar-me a pôr no papel as conversa que tenho cá com os meus botões, auxilia-me a cristalizar o que ao vi. Só pensando (e escrevendo) sobre o que ficou visto é possível aprender mais sobre cinema.
Voltemos pois a ligar o projector começando, todavia, pelo fim. É com enorme expectativa que espero por "Grand Torino" de Clint Eastwood. Neste momento estão grandes filmes em exibição, contudo, provavelmente nenhum será uma obra prima. "Grand Torino" promete sê-lo.
Não pode ser, há que combater a inércia. Por variadas razões, mas, essencialmente, porque o "Campo Contra Campo" ao obrigar-me a pôr no papel as conversa que tenho cá com os meus botões, auxilia-me a cristalizar o que ao vi. Só pensando (e escrevendo) sobre o que ficou visto é possível aprender mais sobre cinema.
Voltemos pois a ligar o projector começando, todavia, pelo fim. É com enorme expectativa que espero por "Grand Torino" de Clint Eastwood. Neste momento estão grandes filmes em exibição, contudo, provavelmente nenhum será uma obra prima. "Grand Torino" promete sê-lo.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
N MÚSICAS LXII
"Song for a blue guitar" - Red House Painters
O curioso caso de Pedro Mantorras
Saí de casa com a gabardine bem fechada e o chapéu bem enterrado na cabeça. Sob a gabardine, o manto sagrado e o cachecol do costume. Chovia muito e insistentemente. O vento ameaçava arrancar-me o chapéu.
Mas que diabo: o Benfica é o Benfica!
Quinze minutos de caminhada depois estava no estádio, já depois da Axe Dancers e da Águia Vitória terem dado o seu espectáculo costumeiro. Vinte e uma mil pessoas, pouca gente para um jogo do Glorioso, portanto.
Durante o jogo percebia-se que havia raça dos nossos, havia querer, havia ambição. Mas faltava a mística, a estrelinha, o golpe de asa. Eis que o católico Quique decidiu socorrer-se do voodoo e lançou Mantorras para o terreiro. Na primeira vez que a sua bota tocou na bola Mantorras fez golo. E o Benfica ganhou.
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